Pra mim o MC Rashid é um dos grandes nomes do nosso RAP Brasileiro na atualidade. Sempre trazendo muita força nas punchlines e já com uma boa experiência, o MC costuma apresentar um som mais pedrada que o outro.
Hoje (11/03), Rashid lançou e colocou à disposição para download o seu novo som, intitulado “Talvez”. “Talvez” é um som mais “love”, mas que se encaixará na história da maioria dos ouvintes por aí.
Pra entender melhor cada letra rimada por Rashid, resolvemos disponibilizar o mais rápido possível para todos a letra do som, muito quente por sinal! Aliás, falando em QUENTE, que beat foi esse do Laudz? Muito foda mesmo, sem palavras!
Letra: Talvez suas amigas tenham razão Talvez eu seja largado demais pra merecer seu coração Vagabundo demais, que tinha sido sortudo demais Por ganhar um pouco da sua atenção Talvez eu não seja o cara padrão Talvez você me ache muito nerd ou muito cafetão Talvez eu viva muita ação E você só queira um príncipe que jante com seus pais e peça sua mão Me parece mesmo sem noção, um cara que tá sempre em reunião Você nem sabe o que ele faz direito E pra todo efeito vive dizendo por aí que tem uma missão Nunca atende o telefone quando liga (Não!) Não entende que por isso você briga (Não!) Mas você sente que esse frio na barriga É mais mais que coincidência É tráfico de influência, é magico Quando você larga seu mundo e seu tudo pra ficar aqui Eu digo que isso tudo é lógico Quando você liga eu logo sinto uma vontade de tá aí contigo Olho pro relógio, se você vem Não sei se sou refém ou se eu sou o seu abrigo E agora como eu vou dormir se não tenho ela aqui Não sei bem o que essa mina fez comigo!
Sei que você gosta Sei que você gosta de mim e do meu jeito de ser Gosta de mim, sei que você gosta, mas seu defeito é dizer Talvez, sim. Talvez, não. Talvez sim, talvez, não. Talvez, sim. Talvez, não. Talvez sim, talvez, não.
Talvez você tenha medo do futuro Talvez goste de ficar em cima do muro Talvez pense que achar o homem ideal seja difícil Como encontrar uma agulha no palheiro no escuro Talvez eu seja o bandido dessa relação (sim!) Mas já te tirei de tantos apuros Graças a isso, cê me deve uma, duas, três E da próxima vez eu cobro com juros (eu juro!) Posso ser o cara mau se você pedir O namorado normal se eu decidir (aham!) Mas qual seria a graça se eu fosse assim Se você gosta dessa coisa das ruas em mim Sei que você me conhece das ruas, enfim Então esquece o que as pessoas te falaram Se suas amigas dizem que caras como eu não prestam É porque elas ainda não provaram (há!)
Sei que você gosta Sei que você gosta de mim e do meu jeito de ser Gosta de mim, sei que você gosta, mas seu defeito é dizer Talvez, sim. Talvez, não. Talvez sim, talvez, não. Talvez, sim. Talvez, não. Talvez sim, talvez, não.
Às vezes sou grudento, às vezes mais maloca Mas eu sei que você não me troca Às vezes ciumento, às vezes parece que pouco importa Mas eu sei que você não me troca Às vezes sou marrento, um pouco idiota Mas eu sei que você não me troca Mas se esse é o momento, então se toca Talvez o que se eu sei que você não me troca
Sei que você gosta Sei que você gosta de mim e do meu jeito de ser Gosta de mim, sei que você gosta, mas seu defeito é dizer: talvez!
Sabe aquele tipo de artista, principalmente músico, que costuma usar qualquer pedaço de superfície pra escrever um verso, uma inspiração? Sabotage leva essa categoria ao extremo.
No estúdio, “mergulhava” entre os pedaços de papel para encontrar aquele verso que queria; enquanto não encontrava, ia metendo umas rimas improvisadas mesmo no som.
Não à toa, mesmo após sua morte, um disco de músicas inéditas deve surgir em breve. Além disso, o livro “Um bom lugar”, sua biografia oficial, escrito por Toni C., traz vários versos retirados de suas “anotações”, que nunca foram gravados (pelo menos, que não foram lançados ainda).
Pra comemorar este 41º aniversário do “Maestro do Canão”, reunimos algumas dessas linhas pra você. Afinal, quanto mais Sabotage, melhor!
Todos os versos foram retirados do livro “Um bom lugar”, a biografia oficial do Sabotage, escrito por Toni C.
1. Sobre sua “fraqueza” pelas mulheres
“Não me acho
Canto o que faço
Não sou Picasso
Mas traço
Do sexo frágil
eu me acabo”
(p. 47).
2. Sobre a morte de sua mãe
“Doze de junho de 92
Minha mãe se foi.
A dor corrói
Mas nego não para no tempo
Teve o tormento
A dor foi forte
e sente lá dentro”.
(p. 65).
3.
“Coração selvagem
Pai por três vez
Sabotage”
(p. 76).
4.
“Seu vizinho do lado, num quarto alugado
Rapaz bonito e olho claro, tem a sorte ao seu lado
Estudou comigo num colégio do estado
Mosca branca hoje em dia o colégio estaciona carros”
(p. 77).
5. Sobre a morte de Deuclides, chefe do tráfico na região, e a acusação de ter cooperado
“Logo eu que nunca caguetei, nunca vacilei, nem dei derrame no movimento de ninguém.” (p. 83).
6. Possivelmente sobre seus filhos ou as crianças da quebrada
“Isso me alegra o coração
Continuo meus passos
Fazendo uma oração para que Deus
Ilumine essas crianças
Para que elas não brinquem como eu brinquei; eu abusei
Não ouvi meus pais, achei que
Os amigos perdidos e as ruas eram muito mais
Não era nada, não me fez bem
Fui pego pela viatura;
Ouvi o PM dizer que
Colégio de menino de rua é a Febem”
(p. 94).
7. Sobre a periferia, depois da vitória de Marta Suplicy contra Maluf
“Cada vez mais cabulosa é a periferia. Com as mulher no governo, achei que mudaria. Só atiça o desemprego, a cobiça.” (p. 160).
8.
“O baseado é promovido pelas críticas por ser um mato plantado, não uma forte química.” (p. 179).
9. Sobre suas paixões no futebol
“Tá bom de lembrar no Rio sou Flá,
Canão Mengão Corintiano 100% no ar!”
(p. 204).
10. Sobre o Natal na quebrada; intitulado “Natal Fatal”
“Quem sobrevive nas ruas, natal é só mais um dia
As mesmas roupas, o mau cheiro, sempre má companhia
Se tendo berço de ouro natal é sempre mais discreto
Compram de vários presentes e dão de amigo secreto.”
(p. 218).
11.
“A vida é descrita como se entende
Quanto mais se vive
Mais a gente aprende, mas nós não podemos
Ir ao fundo no que o profeta escreveu
Quem vive mais para o mundo
Vive menos para Deus.”
(p. 227).
12. Supostamente, a história da policial que seduziu o bandido para obter informações ou algo assim (ou não)
“Parei sentei pra escrever dizer o que estou sentindo
O que eu rimo pra você é o submisso que vivo
Vivi te conheci em Barueri,
não pensei que fosse assim destino tão ruim, em fim.
Aquele dia nada aconteceu porém
Mas valeu também que os anjos digam amém
A minha carreira vou seguir, tenho que ir além
Daqui pra cá vou usá
Então vamos lá, vou lembrar o que foi e pá
Da primeira vez que colei na sua casa
Desce na estação toma o homem de lata,
foi essa a expressão que comigo usava
No boulevard, veio então a informação
Jd. São Pedro é sem segredo e perto do Batalhão
Baruba Style desenvolvida cidade
Luxo de mais que as favelas não sabem
Confrontou-me indigno, seu caminhar transitou parou
Um novo amor
Do meu estilo, hum
Daquele jeito
Um metro e oitenta e cinco, que princesa, eu tô perdido
Conversa mansa e sexy
Alvo vivo esperto e sempre ativo
O insensato e o insensível
Esquecê-la não consigo,
Mas admito arrisco um confisco
Não suporto mais, o não,
Você me maltrata de mais
Não aguento mais hooo,
Preciso de um pouco de paz,
Sumariamos logo mais
Pensando bem eu fui refém também
Até homem de lata da Barra Funda a Pirituba
Barueri, Caracas, Itapevi e de quebrada, vários pião fiz na Lapa
Passando mal com a mulherada
Mas a verdade por você fui sabê terça-feira à tarde
Veja só você quanta ingenuidade
Uma noite com você vale mais que a luz do céu azul
Mais que um veleiro no mar do vento sul
Mandava a rima e escrevia,
Alegremente um suor quente
Era você e suas brincadeiras ardentes
Como um vulcão ativo
Apaixonado fica igual a Lennon com Yoko
Me excito explícito me sinto
Suspiro auto respiro transpiro tiu tiu
Sinal que passou o tempo já nem vejo aquilo tudo
Minas trocam o certo pelo duvidoso
Nunca vira guerrilheiro Rap, nego véio na ativa
Passado é resto e certo?
Tem mil mulher em cada vila
Calça larga camiseta regata, da espraiada, ô zica
Faz parte da periferia
Parei sentei pra escrever e dizer o que sinto
O que eu rimo por você é a sobremesa que vivo
Poxa Vivi quando ti conheci foi tipo assim
Pressenti, vai de ti, nos unir, seu sorri, só pra mim
Fortificalafrí
Não pensei que fosse assim o destino
Tão ruim, em fim
Polícia versos crí, assim esse filme assisti
Na sessão da tarde na casa do Junim.”
(p. 56).
Todos os versos foram retirados do livro “Um bom lugar”, a biografia oficial do Sabotage, escrito por Toni C.
Muito pouco se sabe realmente sobre a vida de Sabotage. Sua história é daquelas de artistas cinematográficos, cheia de intrigas e mistérios.
Literalmente, afinal, em breve devemos ter um documentário e um filme oficial sobre o Maestro do Canão; no ano passado, já teve o lançamento do livro da biografia oficial.
Aliás, o próprio autor da obra, Toni C, revelou que, mesmo depois da intensa pesquisa, muita coisa ficou em aberto. Você sabia que Sabotage faz hoje (03/04) 41 anos? Pois é, o biógrafo explicou essa já no ano passado; até a lápide do artista está errada!
Mas, ainda assim, mesmo com tantas dúvidas, o melhor lugar para encontrar informações sobre Sabotage é sua biografia e de lá tiramos algumas passagens que revelam novidades que nos surpreenderam (além da sua data de nascimento, que foi um pré-bônus e 12 versos do Sabotage que você nunca tinha lido).
Todas as citações foram retiradas do livro “Um bom lugar”, a biografia oficial do Sabotage, escrito por Toni C.
1. Ele começou ruim e chato
Alguns que assistiram a sua performance naquele tempo [1988, Sabotage tinha 15 anos] afirmam que ele era ruim e não demonstrava nenhum talento, além disso era “chato”, estava sempre nos bailes pedindo pra cantar. “O Sabotage já era muito avançado”, diz Rappin Hood em sua defesa, “era incompreendido, estava à frente do seu tempo”. (p. 46).
2. Conheceu o Mano Brown através de uma namorada em comum
Mano Brown revela que já conhecia uma outra fama de Sabotage, a de mulherengo. “Conheci ele namorando uma mina que eu namorei. Na adolescência. Isso em 88, na Vai-Vai” [Retirado da edição nº 6 da revista Rap Nacional]. Cibele era o nome da namorada em comum, que morava no luxuoso bairro do Morumbi, filha de delegado só dava desgosto à família italiana andando com os manos dos bairros pobres. (p. 46).
3. Perdeu os dentes nas mãos da polícia
Diferente do que imaginava, a maneira imediata de comer e viver de música foi através de um rádio toca-fitas… “Aí, na delegacia, o dente dançou…” [Estação Hip Hop, nº 11], é como Maurinho explicou a ausência dos dentes superiores arrancados a frio pela agressão que sofreu de policiais aos 15 anos de idade. (p. 48).
4. Sua primeira letra composta foi “Rap é compromisso”
Cantaram os Rap’s Tiroteio Verbal, Na City. E a primeira letra que Sabotage compôs do começo ao fim sozinho chamada Rap é Compromisso [versão diferente da que viria a integrar o CD de mesmo nome]. (p. 57).
5. Sua primeira letra gravada oficialmente foi uma música do Ndee Naldinho
Num baile da Chic Show na zona sul, Sabotage encontro um de seus ídolos [Ndee Naldinho], se apresentou dizendo curtir suas músicas antes de entregar um papel […].
Sabotage contou que havia escrito aquela letra para o Ndee Naldinho cantar. Naldinho argumentou que o seu primeiro disco solo já estava completo, prestes a sair, mas considerou acrescentar a estrofe em uma música que estava quase pronta. A música foi batizada de Nosso Rap e integrou uma das oito faixas do disco Menos Um Irmão, Chega Disso lançado em 1991.
“Du caralho! Ficou louco!”, foi o que Sabotage falou para Ndee Naldinho quando o reencontrou após ouvir suas rimas gravadas na voz do ídolo.
Nosso Rap entrou imediatamente para o repertório dos shows […]. A primeira gravação fonográfica com composição de Sabotage foi um grande sucesso!
(p. 58-59).
6. Não aceitava doar seus órgãos
A segunda via de seu RG apresenta o carimbo no alto da foto com a sua decisão: “Não doador de órgãos e tecidos”. Aos mais próximos dizia que temia parar num hospital e no momento entre a vida e a morte desligassem os aparelhos para surrupiarem um de seus órgãos vitais. (p. 77).
7. Conseguia ser um grande cuzão se quisesse
“Me lembro de quando estávamos jogando bola lá no alojamento, de repente Maurinho aparecia empunhando uma calibre 12 ou uma PT e parava o jogo, dava tiro na bola e nos fazia continuar o jogo com a bola furada. E ficava encostado no canto da quadra sorrindo da nossa cara”, conta F. E. [nome preservado], em depoimento ao autor.
[…] O próprio Maurinho reconheceu… “Eu dava trabalho para esse pessoal aqui da área [Favela da Paz], era terrorista, andava armado, ninguém chegava perto de mim”, revelou em 2002 para o jornal O Estado de S.Paulo.
(p. 85).
8. Tinha, literalmente, um Pit Bull por ele (ou algo assim)
Maurinho arrumou uma solução doméstica pra entreter seus filhos: os presentou com um cachorro e deu o nome ao animal de Sabote. As crianças adoraram. Esta seria uma saída razoável, caso Sabote não fosse um filhote de Pitbull prestes a crescer muito, sendo criado dentro do barraco de dois cômodos sem janela, junto com toda família. (p. 95).
9. Seu desenho favorito era “Gato Félix”
Mas às vezes ele gostava de sentar ao lado de seus filhos para ver desenhos. Seu preferido era o Gato Félix. “Taí um desenho com herói negro e um professor vilão”, ele pensava. Gato preto, símbolo de azar para os mais supersticiosos, no clássico dos desenhos animados é um divertido, simpático e inteligente gato, munido de uma bolsa mágica. (p. 96).
10. Usava o RAP gringo como molde para suas composições
A técnica, para compor as músicas que ativaram o turbo, consiste em encaixar as palavras na métrica de um Rap cantado em inglês, semelhante à quadriculação na reprodução de uma gravura. Assim, a figura é reconstruída pedaço por pedaço. Na composição musical transcreviam uma nova música com outras palavras, novo tema, mas com a mesma sonoridade da canção original.
A música Affirmative Action, do Nas, com participação de AZ, Foxy Brown e Cormega, do grupo The Firm, foi a base para a reconstrução de Um Bom Lugar. […] Na música Incentivando o Som, Sabotage utilizou King Toast Queen do Wu Tang Clan. No Brooklin Sabotage se inspirou em Naughty by Nature.
(p. 104).
A letra de Dama Tereza começou utilizando a música The Way I Am, de Eminem, como referência, mas para se aproximar das palavras inglesas terminadas com o som de “i” foi necessário mutilar palavras e mudar a construção de frases para manter a sonoridade. (p. 212).
11. Acrescentou um improviso do Max B.O. à música “Cocaína”
Sabotage confessou depois: “Eu tava bem louco na rádio, comecei a errar a letra e ele começou improvisar um free for bidden…”. No final do programa Sabotage, aliviado e agradecido, declarou a Max B.O: “Cara, eu vou usar essas palavras que você inventou na hora pra pôr na minha música. Não tinha isso, mas agora vai passar a ter” [Revelada em entrevista para o site Manuscrito]. (p. 107).
12. Sua mulher escolheu o instrumental de “Um bom lugar”
Depois daquilo a música produzida por Zegon e Ganjaman ganharia novos acordes, mas a base de Um Bom Lugar, indicada pela esposa, permaneceu e se tornaria mais tarde um de seus maiores sucessos. (p. 116).
13. Não conseguia gravar a mesma letra mais de uma vez
Após todo mapeamento, regravavam – agora pra valer. Só que Sabotage gravava com novas palavras, improvisava, virava a página de seu caderno e, enquanto não se achava, ia colocando letras que surgiam na hora. “Porra, Sabotage, não é assim”, interrompiam a gravação. Readequavam as marcações e quando iam gravar novamente Sabotage criava uma “terceira versão” para a música, cheia de gírias, neologismos e onomatopeias. (p. 120).
14. Filmou “Um bom lugar” com os óculos do Thaíde
Durante as gravações, Sabotage aparece com um estiloso par de óculos de sol – aquisição feita em caráter de empréstimo com Thaíde no show que fizeram no Vale do Anhangabaú. Thaíde emprestou as lentes advertindo para que tivesse cuidado com os óculos – figurino de seu vestiário, utilizado no videoclipe Senhor Tempo Bom, onde aparece caracterizado com trajes da década de 1960.
15. Não gostava que falsificassem seus produtos
Um dia, deu o troco: se vingou da grife que confeccionou roupas com seu rosto estampado sem autorização e nenhuma contrapartida ao artista. Sabotage junto de KL Jay e Pixote entraram na loja, retiraram das araras e mostruários todas as camisetas com sua face ou seu nome, e antes de sair pediu para o vendedor dar o recado ao dono da marca: “Diz que o Sabotage veio aqui pegar umas roupinhas”. (p. 156).
16. O personagem Nego Preto, de “Carandiru”, era baseado em seu tio
Eles falavam do Velho Monarca que, no livro, o médico [Dráuzio Varela] trata como Nego Preto. Com a descrição, descobriram que era tio de Sabotage. “Tem personagens aí que representam meus parentes, o Nego Preto é baseado no meu tio, o Velho Monarca que está lá há 28 anos. […]”. (p. 165).
17. Não só atuou como foi consultor dos filmes “O invasor”e “Carandiru”
Após o encontro que garantiu a consultoria e uma ponta no filme, o diretor também pediu, ou foi convencido por Sabotage para incluir uma música para compor a trilha. Foi aí que surgiu Aracnídeo. (p. 138).
Como no filme O Invasor, Sabotage voltava a participar como consultor técnico, indicando atores e falas para algumas cenas [do filme Carandiru]. (p. 167).
18. Oficialmente corintiano, torcia pro Flamengo no Rio de Janeiro
♫ Tá bom de lembrar no Rio sou Flá, Canão Mengão Corintiano 100% no ar! ♫
[Anotações de acervo familiar] (p. 204).
19. Não tolerava desperdício
No restaurante do hotel comemoravam. A sobre de comida no prato de seu DJ foi a pauta da lição do dia:
“Você já passou fome?”, repreendeu Sabotage. “Eu já comi comida do lixo. Se você não estava com fome não deveria ter pegado tanta comida, seu puto”.
(p. 209).
20. Andava armado nos shows
O que Mauro melhorou neste período [início dos anos 2000] foi sua defesa pessoal, voltou a andar armado nos shows. Brincava com os amigos mais próximos mostrando o revólver no camarim. “Se algum puto mexer com nóis terá que se vê comigo…”, esbravejava, num misto de deboche e valentia. Seus amigos achavam que era marketing.
[…]. Para os mais íntimos o tom era outro. Maurinho desconfiava de uma vizinha que foi morar em frente à sua casa, e, preocupado, confessava: “Mano, acho que a mina é olheira dos meus inimigos”.
(p. 216).
21. Abandonou a cocaína/o crack por um “milagre divino”
A devoção de Sabotage era maior que seu vício. Certa vez, escondeu uma pedra de cocaína debaixo de uma santa em sua casa. Com dificuldade dizia a si mesmo que deveria largar o vício. No dia seguinte a pedra havia derretido e ele concluiu que tinha sido um milagre, um sinal de que deveria parar mesmo. Decidido, nunca mais fumou pedra. (p. 224).
*Como muitos leitores notaram, existe uma pequena confusão neste tópico. Embora cocaína possa ser transportada como pedra, ela é consumida como pó; “fumar pedra” é uma gíria para o crack (ambas drogas derivadas da folha de coca).
22. Recusou convite para posar nu
Meses antes havia recebido um convite para posar nu para uma revista masculina. Fez do convite uma piada para todo mundo.
“Que cê acha deu mostrá o cabo da vassoura? Veja bem. Nessa altura do segundo tempo o que você acha?”
Apesar de tirar uma onda, não levou a sério a proposta. Talvez por influência dos conselhos que ouviu enquanto fazia as brincadeiras, ou por princípio, não aceitou o convite, e recusou o cachê de R$ 70 mil reais. A proposta da revista é algo que a família não confirma.
(p. 233).
23. Ouvia TODO tipo de música
“Em 1985, eu escrevi uma música e ensaiei, mas só pra mim mesmo. Eu usava o solo de uma música do Leo Jaime pra cantar a minha […]. Eu ouvia Malcolm MacLaren, Afrika Bambaataa, Barry White. Me identifiquei muito com o White, por que, como ele, eu também perdi meu irmão para o crime.” [Publicado em 2011, no With Lasers!]. (p. 42).
“Quando tinha uns 16 anos, eu tava na Febem do Tatuapé. Já tava bem desligado do mundo do Rap e era tipo o seguinte: eu escutava um rádio, curtia um Racionais, um GOG, um Naldinho, um Ataliba e a Firma.” [Publicado no Estação Hip-Hop em 2001]. (p. 48).
O integrante dos Racionais MC’s se surpreendeu com as referências que conheceu no Boqueirão. “Ele ouvia música que eu não ouvia, música de rico, não perdia tempo, ouvia poesia”, elogiou Mano Brown. (p. 119).
“Eu gosto de uma Bossa Nova antiga e renovar ela agora, tipo um trabalho de reciclagem. Você tá entendendo? Você escuta um Eminem, um Jay-Z lá fora, um Nely e escuta um Chico Buarque aqui, um Pixinguinha. Tá entendendo? É coisa de louco!” [Publicado no Showlivre, em 2002]. (p. 212).
Embora não tenha encontrado essa passagem exata no livro, em uma entrevista ao Yo!, da MTV, mais especificamente ao Kamau, Sabota comenta um de seus gostos bem peculiares: “Sandy & Junior, cara. Escuto pra caralho os backvocal daquela menina…”.
[BÔNUS] Por que “Sabotage” e “Maestro do Canão”
“Alguém mexeu em minha carteira?”, perguntou irritado. “Oh Deda, fui eu mano”. Maurinho caçou no bolso da calça. “Tá aqui ó, peguei o RG pra poder entrar no baile”. “Cê hein…”. Deda não sabia se punia ou elogiava: “isso é sabotagem… você é um terrorista”. Deda achou melhor contar para sua mãe: “Ele tá saindo escondido, tá fazendo sabotage” [Publicou a Cineweb em 2003].
Sem se dar conta, e pela repetição, Deda acabava de batizar seu irmão: Maurinho passaria a ser conhecido por todos como Sabotage.
Maurinho arrumou uma explicação para o neologismo “Sabotage” sem o “M” no final: “Sabotagem é o ato. Sabotage é o cara que pratica o ato” [Contou à Carta Capital em 2002].
(p. 38).
Sabotage recebeu o batismo na família RZO ganhando um segundo apelido, o que mais sabidinhos chamariam de epíteto, quase um slogan – coisa comum entre os integrantes da sigla. Sandrão, por exemplo, é “o braço direito da favela”, DJ Cia é o “Vilão dos toca-discos”. Coube a Helião, “o Presidente”, o batismo. De tanto ouvir as letras de Sabotage se referirem com maestria ao Canão, se tornou dali em diante o “Maestro do Canão”. (p. 103).
Todas as citações foram retiradas do livro “Um bom lugar”, a biografia oficial do Sabotage, escrito por Toni C.
Nas redes sociais, o Vai Ser Rimando se tornou até que bem conhecido por fazer brincadeiras com discos que estão sendo anunciados há muito tempo, mas ainda não saíram, como (e quase exclusivamente) o VVAR, do Marechal.
A tiração é muito mais uma questão de espera ansiosa pelo trabalho do que uma reclamação. Afinal, o lançamento de um CD é algo bastante crucial para o arista, muitas vezes um divisor de águas em sua carreira.
É claro que o tempo de produção não é diretamente proporcional à qualidade com que o disco será lançado, mas é muito mais provável que um maior tempo resulte em algo mais bem feito do que um produzido apressadamente.
“Sabotage” é o exemplo perfeito de como a espera, por mais longa que seja, pode realmente valer a pena. Produzido ao longo dos anos desde o assassinato do rapper em 2003, em uma parceria da família do Sabotage com o Instituto, dos produtores Rica Amabis, Tejo Damasceno e Daniel Ganjaman, o disco se tornou o mais importante da década.
1. Por causa de toda mitologia que ronda o Sabotage
Sabotage, definitivamente, não era um artista comum. Além do seu talento absurdo, ele também viveu uma vida bastante misteriosa. Mesmo revelando 23 coisas que não sabíamos sobre o rapper e até 12 versos inéditos, Toni C., autor da biografia oficial, conta que mesmo após o livro ainda há muita coisa a ser esclarecida sobre ele. Algumas das quais nunca saberemos.
É óbvio que o rapper contribuiu muito para todo o status que atingiu, mas é inquestionável que boa parte da mitologia criada em volta do seu nome veio após a sua morte, da maneira como ela aconteceu, no auge de sua carreira; algo bem próximo do que aconteceu com nomes como Tupac e Biggie.
2. Por causa da espera de 13 anos
Quando você alcança um status do tamanho do alcançado pelo Sabotage, todos os holofotes se voltam pra você. Todo mundo quer saber cada um dos seus passos, por onde cê tem andando, quando vai lançar o próximo trabalho.
Sim, o rapper morreu, mas desde que foi dito que ele estava gravando o álbum na semana da sua morte e mais tarde com a confirmação de um disco póstumo, a comoção na cena foi absoluta.
A falta de detalhes sobre a produção, o constante adiamento e, mais recentemente, os trechos revelados resultaram, obviamente, numa expectativa elevada a números incalculáveis. Tornou-se um dos discos mais esperados do rap brasileiro no dia que foi confirmada a sua existência.
3. Por causa da merecida recompensa à família
Sabotage morreu no auge da sua carreira. Embora tenha lançado um disco de sucesso, atuado em filmes e feito vários shows, ele não chegou a colher quase nada das sementes que plantou. Pelo menos, não financeiramente.
Como consequência, sua família ficou praticamente abandonada durante muito tempo. Entretanto, nos últimos anos, vários itens têm sido lançados em sua homenagem, o que deu nova visibilidade à sua arte e a merecida recompensa, principalmente financeira, mas também da grandeza de sua obra.
Além do já mencionado livro da sua biografia oficial, que teve parte da renda destinada à mulher e aos três filhos deixados pelo rapper, foram realizados alguns shows, alguns documentários foram lançados e também uma edição comemorativa de 15 anos do CD “Rap é compromisso!”.
“Essa é a maneira que encontramos para fazer com que a família do Sabotage finalmente passe a receber os direitos autorais relacionados à música dele na internet”, contou o Diretor de Marketing da ONErpm, Márcio Cruz, em entrevista ao blog Cultura de Rua, do site da Rolling Stone Brasil.
E, por fim, pra fechar essa era com chave-de-ouro, o disco “Sabotage”, no qual até os artistas envolvidos aceitaram destinar seus cachês à família do rapper. Se você não quiser comprar o disco no formato físico quando sair ou não quiser adquirir pelo iTunes, entendo, mas o mínimo do mínimo que você deveria fazer é procurar sempre consumi-lo pelos canais oficiais. O rap agradece.
4. Por causa da produção impecável
Eu não vou comentar cada beat, cada arranjo ou qualquer coisa do gênero porque chego nem perto de ter o conhecimento necessário para tanto. Embora, qualquer idiota possa ver que o que foi feito em “País da fome (Homens animais)” pra complementar os versos geniais do Sabota é simplesmente de outro mundo; DJ Cia arrepiou com o bagulho do início ao fim.
Mas, o que eu gostaria de ressaltar é o cuidado tido com cada etapa do longo processo que foi colocar esse disco na rua. Assim como a vida do Sabotage, o bagulho foi louco.
E, mesmo com o álbum pronto, em 2015, era preciso também encontrar alguém que pudesse lançá-lo da melhor forma, com melhores retornos tanto para a família quanto para a própria imagem do rapper. O Spotify ofereceu isso e a ideia da audição com vários convidados ilustres do hip hop brasileiro transmitida ao vivo foi incrível.
É um momento que fica pra história, não só pelo ineditismo, mas pela reunião de nomes tão importantes da cena pra escutar juntos e exaltar o maestro. Energia incrível. Aliás, imagina como foi juntar boa parte desses nomes na criação dessa obra, gravá-los em meio a versos já existentes do Sabotage e encaixar tudo isso perfeitamente.
A própria escolha também não deve ter sido fácil. Eles poderiam ter escolhido praticamente quem quisessem porque, convenhamos, quem não gostaria de participar disso? Mas, optaram, de forma geral, por trabalhar com nomes que o próprio rapper já havia “flertado”.
Isso vale pras produções também. O disco tem uma diversidade incrível, bem a cara do Sabota, bem a qualidade que o manteve relevante por todo esse tempo, mesmo após a sua morte. E pensar que a voz dele já estava gravada em todas as faixas, ou seja, sim, o desgraçado conseguia rimar com qualidade em cima de qualquer coisa!
5. Por causa da despedida de uma lenda
Quando cobramos o Marechal pra lançar o seu primeiro disco, o Racionais pra lançar o próximo ou qualquer coisa do gênero, não passa, de fato, pelas nossas cabeças que estes discos nunca virão. Tem fã que pede nova música ou novo álbum no mesmo dia que a última parada foi lançada.
Com o Sabotage, isso não acontecerá. É bem provável que este disco contenha os últimos versos que iremos escutar do Maestro do Canão em toda nossa vida. Enquanto escrevo, eu penso o quão foda é isso. Ainda mais quando este disco comprovou toda aquela genialidade monstruosa que era atribuída a ele. Todo mundo escutará a última faixa querendo mais.
O ponto positivo é que essa genialidade toda joga a nosso favor. Se em 2000, Sabotage lançou um álbum que é atual ainda pros dias de hoje, imagina até quando escutaremos o novo trampo, que foi feito com muito mais recursos técnicos, achando que foi lançado ontem, mesmo que suas linhas tenham sido gravadas lá atrás.
Arrisco a dizer que ele está muito mais completo ainda como músico nesta obra. Se “Rap é compromisso!” é um clássico inquestionável do rap brasileiro, “Sabotage” o é da música brasileira; arrisco aqui novamente a dizer que não é só o mais importante da década, mas também um dos melhores.
Sabotage era querido pra caralho. Por onde passava, contagiava todo mundo com seu jeitão, sempre fazendo as pessoas sorrirem. Ele levou muito disso pro rap; ensinou muito peixe grande, mesmo ainda em início de carreira, e deixou isso como um importante legado. Ele tava à frente do seu tempo. Morreu no auge da sua carreira, é verdade. Teria feito ainda mais coisas grandiosas se ainda estivesse vivo, sem dúvida. Mas, de qualquer jeito e de forma irretocável, foi eternizado. Um trabalho que fez jus à espera e à lenda.
Independente de onde esteja, tenho apenas uma certeza: ele, definitivamente, está em um bom lugar agora; no bom lugar tão sonhado em vida, construído não só por ele, mas através do nosso sonho também, sonho este que se sonhou junto.
Desde o lançamento da mixtape “Caos Pessoal”, os adoradores do RAP sabiam que o MC AXL não tava no jogo pra brincadeira. Na verdade, o rapper já era um nome conhecido por ser um dos organizadores da “Rua do Flow”, evento de Hip Hop do Vale do Paraíba/SP.
A música “É Nóiz”, 3ª da mixtape “Caos Pessoal”, com certeza é a minha preferida do rapper e achei muito da hora quando anunciaram o lançamento do clipe. Além de representar muito como um bom RAP, é também uma mostra de várias partes da cultura Hip Hop, presentes nas letras do som.
Com mais de 25mil views em pouco mais de um mês, o clipe de “É Nóiz” foi muito positivamente aceito, um ótimo agregador ao nosso RAP Brasileiro!
Vou confessar pra vocês que eu não conhecia muito o trabalho do Slim Rimografia. A verdade é que só conhecia a música Por Você (que aliás é muito boa e recomendo) e sabia da produção dele na música Só Isso, do Emicida (um dos melhores sons do rapper, pra mim, claro).
Entretanto, mesmo sem conhecer profundamente as músicas do Slim, eu sempre o considerei um bom nome do nosso RAP e essa música veio confirmar ainda mais. Aliás, pra quem não sabe, a música já havia sido gravada, só por ele. Esta nova versão é um remix, no qual foi acrescentada a participação do rapper Emicida. O nome da versão anterior é Canto de Vitória.
Letra: Esse é o canto da vitória! Toda honra e glória A quem lutou e deu sua vida pra reescrever a história Vivo em cada memória, toda honra e glória Esse é o canto da vitória!
[Slim Rimografia]
Se quem canta os males espanta, então se levanta Diz o ditado que a gente colhe aquilo que planta Esse som é como a banda de Chico Buarque de Holanda (Anda) Esquece o patrão no coração é você quem manda Quantos enriquecem com suor dedicação e esforço Corrente escraviza e tanto faz, tornozelo ou pescoço Não quero sorriso no rosto, quero conhecimento na mente Vencer o oponente sem gastar bala do pente Cada bala disparada uma vida é perdida Cada bala perdida uma vida é parada Há um corpo na calçada, uma cápsula caída Uma mãe angustiada, um número pra estatística Bibliotecas vazias, presídios lotados Sem livros, com armas e desinformados Quantos são formados com curso superior Nunca foram parados por homens de farda pelo fardo da cor Quem batucava o tambor, recarrega o tambor Carrega na mão o sangue do irmão, que em vão tombô Na ilusão da vitória, alusão ao poder Meu inimigo na casa ao lado é parecido com você (Um conselho) Estamos puxando armas para o reflexo no espelho (Aconselho) Nunca, nunca puxe o gatilho Pois quem sorri é nosso adversário Enquanto nos reunir mais em velórios que em festas de aniversário.
Esse é o canto da vitória! Toda honra e glória A quem lutou e deu sua vida pra reescrever a história Vivo em cada memória, toda honra e glória Esse é o canto da vitória!
[Emicida]
Mofo em piso vermelhão, abafado Crioulo em criadouro de fio desencapado Brinquedo do patrão, pique fi de escravo Jão (Por quê?) Me fez pensar em quanto ódio alguém pode ter Guardei mágoa por mágoa, calculista frio Verme pangua, palma calejada e calma, tio Vim pra matar de raiva, inveja, é como faço Com quem até ontem morria de rir do nosso fracasso Num é fácil assimilar, de gueto, sim, de lá Preto, um microfone, fez seu nome cintilar Beco, vim de lá, farol alto, quem vem lá? (hã) Luz mercúrio, sem futuro, jogo duro pro cês degolar (vem) Odeio os neguinho pacato, saca? É tipo inseto Num cobra, deixa quieto, acontece assim, entende Sem freio, fui desacato que empaca os bico incerto A sobra é papo reto Que perece aqui, além de Saber do seus porquê, seus motivo Cês quer defunto pra aplaudir, mas vim vencer vivo Imune ao crivo, povão à la culto e seita Caiu mil ao meu lado, dez mil à minha direita E eu segui, tô aqui, bem maior, bem melhor Sem dever, sem pagar, sem cair, sem B.O. Vim fazer valer a luta Esse é o momento que cê diz: “maloqueiro filha da…”
Toda honra e glória A quem lutou e deu sua vida pra reescrever a história Vivo em cada memória, toda honra e glória Esse é o canto da vitória!
[Slim Rimografia]
Que a sua alma liberta Sai desse canto agora e canta porque a vida é incerta Quebra as algemas da senzala do seu inconsciente desperta Como Spike Lee, faça a coisa certa (Porque somos) Minoria no congresso, maioria nas favelas (Somos) Maioria nos presídios, minorias nas telas (Liberdade) Só se revela quando o povo se rebela Só consigo me ver na TV quando eu desligo ela Quantas mentiras até parecem verdade? Quantos morreram por cada quilate que ostenta sua vaidade? Dinheiro é necessidade, não é vitória, meu bem Vitória será quando estampar um preto numa nota de cem Alguns têm, outros não Alguns vêm, outros vão Pra mim são só manequins que carregam um cordão A escravidão não acabou, você sabe o que mudou? Temos nossa própria senzala bem longe da casa de Sinhô.
Nessa quarta-feira (02), o Emicida lançou seu novo single, intitulado “Quero ver quarta-feira“. Além de ser totalmente peculiar pelo dia lançado, também uma quarta-feira, a letra e base da música tem tudo a ver com Carnaval, que está chegando. Mas ainda tem mais. A voz escolhida pra destacar o refrão da música é nada menos que a de Mart’nália, filha de Martinho da Vila, totalmente samba.
O nome da música, ao meu ver, vem de uma “crítica” ao jeito como o Carnaval é conduzido no Brasil, onde a comunidade luta pra fazer a coisa funcionar, mas quem leva o crédito e desfila são as “modelete global”. Como o Carnaval termina numa terça-feira, o “quero ver quarta-feira”, do título da música, sugere uma reflexão: o que vai sobrar dessa beleza toda? O que vai ser da quarta-feira? E Emicida nos mostra a resposta já no começo da letra: “Recolhe os bagulho, teu sonho virou entulho“.
Bom, chega de falar, vocês que devem tirar suas conclusões ouvindo a música. Logo abaixo tem a letra pra acompanhar e entender melhor os versos agudos e inteligentes do rapper paulistano. Emicida mais uma vez tocou fundo no coração do Brasileiro e mais uma vez elevou o RAP a outro patamar.
Letra:
Barracão (Alô, comunidade) Eu ainda vejo o mesmo barracão (É hora de abrir o olho) Mas o espírito não (Vamo acordar, favela!) Faz pensar que não valeu (Nossa raiz) Faz pensar que quem morreu (Por nossa raiz) Morreu em vão!
Fim das alegoria Pierrot, Colombina, fantasia O sorriso, toda alegria O confete, festa, orgia Recolhe os bagulho, teu sonho virou entulho Lantejoulas nem brilham tanto se não tem o barulho das batucada o coração faz um mês de parada Pretos voltam a ser só pretos, estilo homem na estrada É nóiz, fita dominada, com essas eu não posso É só olhar os trampo que recebe menos, ainda é tudo nosso Os gringo vem, tira mó lazer, é noiz Divide a alegria com você, é noiz Na Gozolândia é mó fácil dizer que é noiz, meu Mas sozinho na quebrada, só tô eu Vendo a comunidade dar o sangue todo dia Pras modelete global ser rainha da bateria Quem tem dinheiro alcança sua fantasia, sem zelo Quem bordou ela fantasia em sair desse pesadelo
Barracão (Alô, comunidade!) Eu ainda vejo o mesmo barracão (Vamo acordar, favela!) Mas o espírito não (No ar, vamo abrir o olho!) Faz pensar que não valeu (E aí?) Faz pensar que quem morreu (Nossa raiz) Morreu em vão!
Pois quem é fica e ajuda a erguer outro carnaval Mas quem não é, antes da quarta tá dizendo tchau Tira a beleza natural que vence qualquer Photoshop Põe paquita de silicone, mulher de ídolo pop Que só é atraente quando tá com a voz no mute Fala de comunidade, mas só conhece a do orkut A serpentina moca o bote da víbora assassina Geral do filme anos atrás preveu essa sina Quem é que me ensina a real do que eu vejo na pista Não deixo o samba morrer, embora esses vermes insista A elegância de um mestre sala será mantida Ao pisar no lixo da calçada que cobre cada avenida Não tem hora melhor pra dar um basta, excluir esses puto Antes que as porta-bandeira hasteie bandeira de luto Marchinhas serão fúnebres, desfiles em memórias Se nóiz não tirar agora quem não respeita a nossa história.
Barracão (Todos os guetos, todas as favelas) Eu ainda vejo o mesmo barracão (Todos morros, todas ruas) Mas o espírito não (Vamo lutar pelo que é nosso) Faz pensar que não valeu (Pela nossa raiz) Faz pensar que quem morreu (Pela nossa história) Morreu em vão! (Diz aí Mart’nália…)
Barracão (Barracão) Eu ainda vejo o mesmo barracão (Da mesma maneira, no mesmo lugar) Mas o espírito não (Só que a essência já não me parece a mesma, morô?) Faz pensar que não valeu (Cadê o valor?) Faz pensar que quem morreu (Os guerreiros que lutou por isso) Morreu em vão! (Diz pra mim você agora se é verdade…)
Salve, rua Essa é pra todas as favelas, morô? Todas comunidades, todo mundo que da a vida, o suor e o sangue pela nossa raiz, morô? Nos barracão, nas roda de samba, nas roda de improviso, tá ligado, mano? Vamo tornar nosso respeito, nossa disposição, no tamanho do nosso amor, tá ligado? Pra que a beleza do desfile esteja presente todo dia ao nosso redor, tá ligado? Não abraça a ideia dos sanguessuga não, mano Abre o olho, sem emoção Prosperidade pra nóiz, tá ligado? Prosperidade pro gueto, mano Vida longa pro samba, vida longa pra raiz Aí pagodeiro, aí partideiro, aí MC, aí funkeiro, Cê tem uma responsa com essa parada, irmão Abrir o olho e seguir em frente E lutar pela prosperidade e pela vida dos nossos, paz!
Pessoalmente, pior que isso é só perceber que, de acordo com as estatísticas, eu deveria estar votando no Bolsonaro. Ao analisar os votos por município no primeiro turno, especialmente em Blumenau e Gaspar, cidades vizinhas em Santa Catarina que morei praticamente a vida toda, foram 71,59% e 72,43% dos votos válidos para Bolsonaro, respectivamente.
Isso não significa, obviamente, que todos aqui são neonazistas ou apoiadores desta atrocidade, mas dá pra ter uma ideia do ambiente em que você cresce e como isso pode influenciar no seu comportamento.
Continuando… Não dá pra saber exatamente, mas somados os resultados mencionados do 1º Turno com a intenção de votos por sexo, idade, escolaridade e renda para o 2º, divulgada pelo Ibope na semana passada, eu seria Bolsonaro até dizer chega. Masculino, 25-34 anos, Ensino Superior, renda de 2 a 5 salários.
Se a pesquisa ainda considerasse outras questões de minorias, visto que estas devem ter uma maior rejeição ao candidato por causa de suas falas criminosas contra negros e comunidade LGBTQ+, o meu bolsonarômetro iria às alturas: sou branco, hétero e cis.
O que me fez então não só não votar no Bolsonaro como ser absolutamente contra o que foi apresentado pelo candidato? É impossível dizer com exatidão, mas tenho certeza que o rap, baseado no Hip Hop, teve um grande papel nisso.
Eu sempre tive uma proximidade muito grande com o rap, mesmo vivendo em uma realidade completamente diferente das rimadas nos versos que eu mais gostava. Com uns 7-8 anos, eu havia decorado “Hey, Boy”, “Juri Racional”, “Pânico na Zona Sul” e “Fim de Semana no Parque”, que meu irmão tinha numa fita cassete.
Eu, com certeza, não fazia ideia do que elas significavam, pelo menos não exatamente, mas me marcaram tanto que as sei até hoje (quase) de cor. Depois, vieram muitos outros artistas, outros sons e discos que marcaram a minha vida.
Mesmo assim, eu só fui compreender o Racionais de fato quando eu tinha uns 19-20 anos, que foi quando comecei a me aprofundar um pouco mais na cultura. Não era mais apenas ouvir a música e curtir como ela soava, mas principalmente entender o seu significado, o que ela queria passar, pra quem e como. A essência da diferença entre o fã de rap e o fã de rapper que eu costumo mencionar.
É claro que a maturidade natural dos anos que passaram me deixaram muito mais ligado nos problemas sociais além da minha própria realidade, mas principalmente o senso de coletividade que o rap me despertou ao descobrir as origens do hip hop.
Mesmo que a origem da cultura de rua lhe escape, qualquer escutada mais aprofundada de músicas do Racionais, Gabriel o Pensador, MV Bill e tantos outros, pra ficar só no Brasil, já expõem claramente o que todo mundo sabe: o protesto pela melhoria da qualidade de vida do povo.
Como Marcello Gugu define perfeitamente nesse talk incrível no TEDxBlumenau, “essa cultura foi responsável por dar oportunidades para as pessoas nessas comunidades para que começassem a trabalhar um resgate social, cultural através da arte, pra que depois de um longo prazo começassem até a trabalhar a ascensão social”.
Assim, é natural que, muito além de tirar o tempo das gangues para algo artístico, também rolasse todo um pensamento e planejamento coletivo pelo bem-estar da comunidade; uma luta para dar voz e serem vistas as questões até então esquecidas pelo poder.
Ou seja, a base pra esse rap que escutamos e amamos hoje é a luta pelo bem do coletivo, a luta pra que quem não tivesse voz fosse ouvido. Assim, parece no mínimo hipócrita dizer que gosta de rap, mas que apóia uma pessoa que prega exatamente o oposto disso em cada possibilidade que tem de falar.
Como que uma cultura que une os povos e tirou jovens de gangues dando-lhes perspectiva e não armas poderia apoiar isso? Não tem como o hip hop, que defende abertamente a justiça para o povo, principalmente das comunidades mais necessitadas, que já sofrem tanto com a opressão policial e a morte de jovens negros e pobres inocentes, apoiar que a polícia que mais mata no mundo tenha “carta branca para matar em serviço“, como propõe Bolsonaro.
Você pode fazer um rap defendendo Bolsonaro? Claro que pode. A música rap é ritmo e poesia então você poderia criar uma música com ritmo e poesia em apoio ao Bolsonaro, sem dúvida. No entanto, isso não te torna um rapper. Do mesmo jeito que curtir a batida do rap, não te torna um fã de rap e sim um fã de batidas.
Mais do que um estilo musical, o rap é um dos principais elementos do hip hop. Se você quiser se especializar no rap, você precisa participar e entender a cultura a qual ele pertence. Burocracias à parte, proclamar-se rapper sem conhecer e praticar os ensinamentos do hip hop é a mesma coisa que querer ser cirurgião sem fazer medicina antes. Você não deveria ir pra especialização sem passar pela base!
Não à toa, a grande maioria dos rappers já se posicionou a favor do Hip Hop e, naturalmente, contra Bolsonaro.
O mais interessante é que, normalmente, os rappers ficam com a obrigação de fazer um som mais político, mais contestador, enquanto outras camadas artísticas se abstêm de toda essa polêmica. No entanto, as atitudes e planos de Jair Bolsonaro são tão nocivos que atraíram uma gama absurda de artistas para defender o Brasil.
Um dos casos mais comentados foi o do cantor Roger Waters, um dos fundadores do Pink Floyd, que em sua turnê recente pelo Brasil fez diversos protestos contra o candidato; no mais polêmico destes, ele incluiu Bolsonaro em uma vasta lista de neofascistas em ascensão.
Alguns fãs do cantor, aparentemente apoiadores de Bolsonaro, criticaram o gesto de Waters, questionando o posicionamento em meio a um show. Quem o fez, definitivamente, não entendeu uma linha se quiser da carreira do cantor e da banda, que em diversos momentos fez músicas baseadas em gestos políticos contra o tipo de ameaça que o candidato do PSL representa.
E isso tem acontecido com frequência no rap também. Muita gente criticando a manifestação dos rappers contra Bolsonaro ou se declarando fã de rap e fã do Bolsonaro quando as duas são, quase que em todos sentidos, excludentes. Como demonstrado, é no mínimo hipócrita se dizer fã de rap e fã do Bolsonaro.
Muitos alegam que essa grande participação de artistas contra Bolsonaro é um suposto medo do fim da Lei Rouanet, supostamente proposto pelo candidato do PSL. Que com a vitória do Bolsonaro estes artistas iriam perder seus benefícios com a lei. Aqui acredito que valha uma explicação um pouco mais detalhada porque, infelizmente, a Lei é muito usada para fake news porque muitos a desconhecem.
Eu também desconhecia até assistir ao vídeo do Pirula, que foi o mais didático e imparcial que encontrei. Vou tentar destrinchar os pontos mais importantes aqui, mas recomendo que assistam ao vídeo completo no Youtube para um melhor entendimento Quem prefere ler a assistir vídeo, a matéria do El País também é bem completa.
A Lei Rouanet não tira diretamente dinheiro do governo e dá para os artistas realizarem seus shows ou eventos culturais. O que ela faz é reverter impostos que seriam pagos ao governo para essas atividades culturais;
Existe um limite para esse repasse (4% no caso das pessoas jurídicas, 6% no das físicas). Ou seja, a pessoa física ou jurídica não pode simplesmente escolher reverter todo seu imposto para esse tipo de ação. É como se o governo definisse previamente uma quantidade de impostos captados que seriam destinados à cultura e permitisse que esse repasse fosse feito diretamente para projetos específicos;
Só para ressaltar o ponto anterior e destacar: é a mais pura fake news dizer que a falta de dinheiro na saúde e educação é uma consequência da Lei Rouanet, afinal, a verba destinada pela Lei já iria pra cultura de qualquer jeito;
Os projetos fomentados são submetidos à aprovação governamental. Não dá pra você sair pegando os impostos das pessoas e investindo em qualquer coisa, tudo precisa estar dentro de uma pá de regulamentações e ser escolhido em meio a uma pá de projetos, tudo apresentado de maneira pública e, aparentemente, transparente;
A maioria das ações nem acontecem ou acontecem defasadas. Quando o governo recebe os projetos para aprovação, ele, normalmente, mesmo aprovando, corta a verba destinada. Ou seja, você abre um projeto pedindo para captar 10 milhões de reais para um show, apresenta todos os custos bem justificados, dentro do regulamento. O governo aprova seu projeto, mas te permite captar apenas 250 mil reais. Por mais bem explicado que o seu projeto era, isso pode acontecer. Ainda assim, você não simplesmente recebe esse dinheiro do céu; você precisa correr atrás para captá-lo com as pessoas, jurídicas e físicas. Você precisa, digamos, correr nas empresas apresentando seu projeto e pedindo o apoio delas – pedindo que elas aceitem destinar até 4-6% dos seus impostos para o seu projeto, desde que, claro, fique dentro do máximo que você pode captar para aquele projeto. Nem sempre é fácil encontrar pessoas dispostas a colocar sua marca, sua grana em uma ação cultural, pois esta precisa estar de acordo com o que avalia ser o melhor;
A Lei Rouanet, no papel, parece boa; o seu grande problema é que, como todas as boas leis que temos, ela precisa ser bem fiscalizada. Não é assim tão difícil imaginar os tipos de artimanhas que pessoas corruptas podem tentar para tirar o seu. No entanto, é preciso ver também o quanto de projeto cultural bacana ela proporcionou. Aumentar a fiscalização sobre a Leu Rouanet é válido; acabar com ela não parece tanto assim. Você poderia argumentar que deveríamos repassar um valor menor para estes projetos, mas daí você estaria sugerindo diminuir o pouco que já investimos em cultura; a mesma cultura que salva tanta gente do crime com bem menos reais investidos do que todas as outras possibilidades.
Outro ponto que os fãs do Bolsonaro que se dizem fãs de rap criticam nos rappers que se posicionam contra o candidato é que o PT se mostrou corrupto nos anos que teve no poder e que assim continuaria. A frustração com o partido é compreensível, mas é preciso entender que o combate à corrupção avançou muito no Brasil; uma corrupção que sempre existiu, finalmente está sendo atacada.
Muitos políticos do alto escalão foram condenados e a própria Presidenta eleita sofreu um impeachment. Independente de concordar ou não com este processo, é preciso enxergar que há uma vigilância gigantesca quando se trata de um governo do PT, muito maior do que em qualquer outro partido.
Fora isso, não é o PT que está sendo eleito, mas sim Haddad, que já demonstrou em mais de uma oportunidade a preocupação com a manutenção da democracia e do diálogo entre todas as classes.
Por que um fã de rap deveria acreditar no Haddad?
Haddad é a única opção democrática que temos.
Já faz uma cota que não voto no PT no primeiro turno, por, de fato, achar que precisávamos de uma mudança. Muitos indivíduos do partido se aproveitaram dos anos no poder pra ganhos pessoais e isso é inegável. Mas, não é exclusividade do partido e estes foram condenados. Foi no governo do PT que a corrupção foi combatida, até mesmo de seus integrantes; é ingenuidade demais achar que não acontecia antes.
De qualquer jeito, o partido cometeu inúmeros erros e precisa ser responsabilizado por isso. É normal que nos sintamos igual o Mano Brown que, mesmo no comício do PT, pegou o microfone pra falar algumas verdades. Sem medo, mesmo estando perante milhares de adoradores do partido, ele apontou os problemas.
Foi um momento de democracia pura. Você, no meio de um comício do partido, criticá-lo sem dó e ninguém vir te censurar, desligar seu microfone, tentar te silenciar de alguma forma, é a única coisa que podemos esperar de um governo democrático. Algumas vaias, claro, mas isso é normal; as pessoas têm o direito de dar sua opinião e a vaia e o aplauso se encaixam nesse tipo de manifestação.
E, pelo contrário, Haddad mostrou preparo para a presidência quando se pronunciou sobre a fala de Mano Brown e concordou com o rapper. Reconheceu o erro do partido e mostrou um caminho para a mudança. É o mínimo que esperamos do presidente do País: diálogo.
Está claro que o voto no PT é crítico. Os mesmos que apontam falhas, como Cid Gomes e Mano Brown, votarão no Haddad porque, com o que está imposto a nós neste segundo turno, é a única escolha possível para continuar a democracia.
Afinal, do outro lado, temos alguém que, além das questões autoritárias já citadas e mostradas até em vídeo, prefere não dialogar e ser questionado sobre suas propostas, que manda calar a boca até um jovem com uma pergunta simples após sua palestra. Se eleito, Bolsonaro será o primeiro presidente a impedir a realização de um debate de segundo turno. Isso parece democrático para você?
Há quem diga que seja por causa do medo de um novo atentado contra o candidato, no entanto, isso não impediu que ele saísse de casa as tantas vezes que saiu; até porque, se eleito, não poderá governar o Brasil de casa. Ele já reforçou a segurança e tudo. O que aconteceu com ele da facada foi horrível, de fato, mas ataque de alguém com problemas psiquiátricos, nada indica que aconteceria de novo com Bolsonaro melhor protegido.
O próprio Bolsonaro já disse que não comparecerá por causa da sua saúde, mesmo já tendo sido liberado por médicos; mesmo participando de entrevistas a jornalistas selecionados por ele. Ou seja, ele está apto a ser perguntado e responder perguntas.
Por último, ele também alega que seria uma estratégia, que o debate seria algo secundário. Como que, em plena democracia, um debate é algo secundário? Como que você não permite que façam perguntas pontuais sobre o seu plano? O debate é o ponto alto da democracia. Nada mais democrático do que estar aberto a questionamentos e perguntas sobre você, seu partido, seus planos, seu futuro governo. É para isso que você se candidata à presidência.
A nossa democracia representativa, por mais falha que ela possa ser, ainda é a melhor opção e, assim sendo, o eleito representa o povo. Mas, de que maneira ele representará o povo se não está aberto a responder questões sobre o seu plano de governo, a ouvir críticas e opiniões opostas. Isso é, no mínimo, uma atitude antidemocrática.
Principalmente porque, quando um candidato não vai aos debates no segundo turno, ele impede a realização do mesmo, visto que só existem dois candidatos na disputa. Essa é a estratégia de quem está à frente, ok, mas será que a democracia não vale mais do que a estratégia?
Muitos candidatos deixaram de ir em debates no primeiro turno, de Collor até Dilma. No entanto, os debates ainda ocorreram, houve apresentação de propostas e tudo que permeia o campo democrático. Não ir a um debate no segundo turno impede sua realização dificultando a comparação de propostas e dos próprios presidenciáveis perante o povo. Bolsonaro parece se aproximar ainda mais da ditadura que defende com tanto amor.
O que Bolsonaro tem a esconder sobre suas propostas que o fez recuar tanto dos debates? Mesmo a sua saúde ou o medo do atentado poderiam ser contemplados com uma sabatina em sua casa, por exemplo, ou como foi na entrevista à Record. Mas, ele opta por apenas ser entrevistado por jornalistas que são seus amigos e concordam com ele, chegando até a impedir que outros jornalistas presentes o fizessem perguntas.
É um direito dele? Talvez, mas por que alguém que é candidato a ser presidente do Brasil foge tanto de perguntas assim? Por que tem medo que o povo o confronte com suas dúvidas sobre seu governo? É um direito do povo assistir a como o candidato se sai nas mais diferentes perguntas e situações, afinal, é esta pessoa que comandará o nosso País nos próximos 4 anos.
Junto com a imensa quantidade de fake news que a campanha de Bolsonaro tem feito circular, mais um flerte com a antidemocracia, há quem diga que é Fernando Haddad quem quer censurar a imprensa por causa de uma “regulamentação dos meios de comunicação” em seu plano de governo. No entanto, as pessoas não se atentam para a óbvia distinção entre regulamentar e censurar.
Aliás, no capítulo V da nossa Constituição, sobre a “Comunicação Social”, já há várias regulações da mídia, ou seja, isto não é algo que Haddad estaria impondo para controlá-la.
Aliás, de acordo com a BBC, ainda em 2014, quando a regulamentação já era pauta de discussões pré-eleições, o advogado especializado em direitos humanos David Kaye, enviado especial da ONU para liberdade de expressão, disse que “uma regulamentação da mídia que garanta uma ‘multiplicidade de vozes’ no espaço público pode ser positiva para o Brasil – como o é para qualquer democracia”.
E isso vai de encontro ao que Haddad propõe, que é seguir o modelo estadunidense, nada ditatorial, que “impede a concentração nas mãos de uma família só de todas as mídias, por exemplo, o rádio, TV e jornal”. Isso é uma regulamentação, bem longe de uma censura. “A concentração dos meios de comunicação é um empecilho para a liberdade de imprensa”, defende Haddad.
Já está mais do que claro que, dos candidatos que nos obrigaram a escolher para este segundo turno, o único de fato preparado para ser presidente do Brasil é Haddad. Além de ter se mostrado muito mais adepto à democracia que Bolsonaro, ele é professor de ciência política da Universidade de São Paulo (USP), instituição pela qual se graduou bacharel em direito, mestre em economia e doutor em filosofia.
Foi ministro da Educação de 2005 a 2012 e prefeito da cidade de São Paulo de 2013 a 2016. Embora digam por aí que foi eleito “o pior prefeito do Brasil”, a pesquisa referida continha apenas 8 prefeitos, ou seja, 0,14% dos prefeitos do país, uma amostra irrisória.
Pode se argumentar que, ainda assim, é uma avaliação ruim. No entanto, visto que a pesquisa aconteceu no final de 2014, poucos meses depois de uma eleição presidencial que dividiu o Brasil (e marcou a rejeição ao PT em São Paulo – Aécio teve mais de 60% dos votos na capital), era de se esperar que o povo paulistano refletisse essa divisão também no prefeito do mesmo partido.
Bolsonaro não tem capacidade de ser a mudança que o povo precisa
Será que mais precisa ser dito para ficar claro como Bolsonaro não está preparado para ser presidente do Brasil? De fato, saber que ele apóia abertamente a ditadura e faz menção honrosa a torturadores já deveria ser suficiente para não votar nele, no entanto, o candidato do PSL tem desempenho medíocre em outros tantos níveis de questões fundamentais para o desenvolvimento do país.
Embora, aqui deva ser aberto um parenteses sobre as fake news: é bem verdade que elas existem dos dois lados e não vou entrar no mérito de quem espalha mais porque não valeria a pena. No entanto, as semelhanças apontadas pelo Canal do Slow entre Bolsonaro e Steve Bannon, estrategista-chefe da campanha do Trump são, no mínimo, dignas de uma maior investigação.
Não só porque Bannon é um ser abjeto, que defende o lado sombrio e se autoproclama Darth Vader, mas porque ele é uma das figuras centrais do escândalo da Cambridge Analytica, aquela empresa que utilizou dados do Facebook das pessoas para empurrar propaganda pró-Trump guela abaixo durante as eleições estadunidenses e também impulsionar o Brexit no Reino Unido.
Eu também nem vou falar sobre o já considerado “economista de Bolsonaro”, Paulo Guedes, estar sendo investigado pelo Ministério Público, porque também são preliminares as investigações. Também não acho necessário pegar pra cristo o vice de Bolsonaro, o General Mourão, que criticou o 13º e já tá falando em autogolpe, porque Bolsonaro parece se afastar das duas ideias, embora a gente sabe que vices podem não ser muito confiáveis, vide Temer.
Será que vale falar que o filho do Bolsonaro, deputado federal reeleito pelo mesmo partido do pai, disse que “basta um soldado e um cabo para fechar o STF” ameaçando ainda mais as ameaças já feitas pelo candidato à presidência em relação ao processo democrático? Por mais que diga ter sido uma brincadeira, parece uma brincadeira bem suspeita pra quem tem o histórico de defender a ditadura.
Fora que Bolsonaro, além de permitir que toda família goze facilmente do dinheiro que nós trabalhamos duro para conquistar, foi pego recentemente com funcionária fantasma que era pra ser assessora, mas na verdade era vendedora de açaí. Exatamente como o juiz Márlon Reis descreveu que os deputados fazem para desviar dinheiro público em sua ampla pesquisa no livro “O nobre deputado”.
Vocês não acham curioso que um deputado que passou 11 anos no partido com mais deputados investigados nunca tenha falado nada? Talvez, aí esteja a explicação pro enriquecimento próprio difícil de explicar.
Bolsonaro é inteira e completamente mais do mesmo. Desde suas táticas corruptas até sua fala, ele é exatamente igual a qualquer outro político que está há 27 anos recebendo o nosso dinheiro para fazer nada – podemos argumentar que ele é até pior que a maioria, em diversos sentidos.
Então, devo votar nulo como protesto, certo? Jamais!
Talvez você já tenha percebido o quanto o Bolsonaro pode ser nocivo para o povo brasileiro, mas não está convencido que votar no PT é uma boa escolha. Ok, eu entendo. Como eu já falei, a desilusão com o PT é compreensível.
Se cê sentir que é impossível votar no PT, acho que sim, votar nulo ou branco é o melhor a fazer. No entanto, dado o atual cenário, a diminuição dos votos válidos é ponto para o Bolsonaro, então, é quase como se você tivesse votando nele por tabela. Pense bem.
O voto nulo ou voto em branco, que são, basicamente, a mesma coisa, são descartados para o resultado final das Eleições. O candidato é eleito com base nos votos válidos, que é como se denomina a soma de todos os votos descontando votos nulos e votos em branco.
Pode parecer que se você votar nulo ou branco você estará votando em ninguém, no entanto, ao diminuir a quantidade de votos válidos em disputa, você faz com que o vencedor precise de menos votos para ser eleito. Visto que a diferença entre Bolsonaro e Haddad ainda é significativa, você estaria facilitando diretamente a vitória do candidato do PSL.
Neste caso, a única escolha possível pela democracia é o voto no Haddad. Será que a sua descrença no PT lhe fará apoiar um racista, machista. homofóbico, que diz que em seu governo as minorias terão que se curvar, que a ditadura matou pouco e que em 27 anos de Congresso só fez votar contra o povo?
Já David Duke, ex-líder da KKK, grupo, que defende a supremacia branca sobre os negros e judeus e foi responsável por muitas das torturas e linchamentos que ocorreram com os negros nos Estados Unidos, elogiou Bolsonaro e disse que o candidato “soa como nós”.
Ao votar nulo, você, indiretamente, apóia tudo isso que Bolsonaro significa. A questão já se tornou amplamente maior do que PT e PSL, do que Haddad e Bolsonaro; é sobre o bem coletivo; é sobre continuarmos a ter voz perante tudo que acontece ao nosso redor; é sobre eleger um candidato que, no dia seguinte, você pode estar do lado da oposição e bradar suas críticas sem medo de ser preso, exilado ou até metralhado.
Saia de cima do muro e venha grafitá-lo com a gente. É pela democracia!
24 de janeiro de 2013 é a data que marca esta quinta-feira. Data que se destaca por um acontecimento, uma década atrás, que causaria prejuízos imensuráveis no RAP Brasileiro: a morte de Sabotage.
10 anos depois e os fãs de RAP ainda não esqueceram. E como poderiam? Naquele dia, o Brasil não perderia apenas um bom rapper, mas um dos melhores e mais criativos músicos que o país já viu e verá.
Entretanto, nem tudo é tristeza. Aliás, um das maiores mensagens que o “Maestro do Canão” nos deixou foi mostrar que você pode sorrir e ser feliz, mesmo em meio a tantas tragédias. E mensagens como essa e tantas outras importantíssimas encontradas em suas músicas precisam ser eternizadas de todas as maneiras possíveis, para chegarem ao máximo de pessoas.
E serão. O ano que marca uma década sem Sabotage será o ano que teremos mais “produtos” do Sabotage sendo lançados. De acordo com a Folha, CD póstumo, documentário, filme de ficção e show em homenagem são os principais destaques.
“Canão Foi Tão Bom”
Tupac disse ter tido uma premonição da sua morte, alguns anos antes de ela efetivamente acontecer. Por isso, produziu muito material no meio tempo. Sabota não teve uma premonição, mas trabalhava pesado na produção de seu novo álbum, na semana de seu assassinato.
Dizem que trabalhou de segunda a quinta, pra morrer na sexta. Gravações em vão? Que nada! Em 2013, todo material do Sabota armazenado em estúdio virará álbum, com produção dos criadores da banda Instituto, Daniel Ganjaman, Tejo Damasceno e Rica Amabis, que também produziram o seu primeiro e único CD até então, “RAP é compromisso”, em 2000.
Além de “Sai da Frente“, que ficou de fora da trilha de “Carandiru” (2003), filme que o rapper atuou, o CD terá ainda “Canão foi tão bom” e “Favela é um bom lugar“, duas músicas vazadas na internet de forma não-oficial e provavelmente ainda não terminadas.
“Canão foi tão bom”, possível nome do novo álbum, tem previsão de ser lançado entre março e abril, e é, sem dúvida alguma, um dos CDs mais esperados para 2013. Além da preocupação em fazer o melhor trabalho possível, por toda expectativa, a demora se deve também aos direitos autorais das músicas, que eram de integrantes do tráfico. Entretanto, há uns anos, os direitos passaram a ser de seu filho, o Sabotinha, que aliás rima em uma faixa junto com o Sepultura.
Veja vídeo das últimas gravações do Sabota ainda em estúdio:
Documentário e filme de ficção
Enquanto o filme, que terá direção de Walter Carvalho, e ainda está em processo de roteirização, o documentário já está em vias de ser lançado.
Ontem mesmo foi disponibilizado o teaser da produção, que será intitulada “Maestro do Canão”.
O documentário, dirigido por Ivan 13P, exibirá mais de 20 entrevistas, imagens inéditas de arquivos e trechos em animação, que será utilizada para preencher a escassez de fotos em partes da vida do Sabota. Além disso, contará com depoimentos de Brown, Rappin Hood, Helião, Thaíde, Beto Brant, Babenco, Ganjaman, entre outros que o comparam a Che Guevara, Garrincha, Luiz Gonzaga e Jackson do Pandeiro.
Tributo e outras homenagens
Ainda de acordo com a Folha, em abril, mês em que o músico completaria 40 anos, será realizado um tributo, sem local definido, com os principais nomes do RAP brasileiro.
A verdade é que toda homenagem é pouca. Quando você perde um de seus maiores representantes e imagina o que ele poderia ter feito nesse tempo todo, fica perceptível quanta falta ele faz.
Ano passado, nesta mesma data, juntamos algumas homenagens bem bacanas que foram feitas ao Sabotage. Assim como sua música, Sabotage é eterno. E, por ser eterno, deve ser lembrado. Se tivemos tantas homenagens ao longo desses anos, teremos ainda mais neste e nos próximos que estão por vir.
Já vou começar o post com a palavra que define o que será apresentado: relíquia! Que o Emicida não tem medo de inovar, isso todo mundo já sabe. Mas, desta vez, o rapper de São Paulo foi além do imaginável; tudo pela música, pela arte.
Em alguns shows pelo Brasil, Emicida tem usado a base e refrão da música “Quero Te Encontrar”, de Claudinho e Buchecha, para cantar a letra de “Vô Busca Minha Fulô”. Você nem deve estar acreditando ou deve estar imaginando como ficou, certo? Bom, pode esperar coisa boa, ficou foda!
Não sei quem publicou primeiro, mas vi primeiro no site O Esquema.
Letra
(Refrão) Quero te encontrar, Quero te amar Você pra mim é tudo Minha terra, meu céu, meu mar Quero te encontrar Quero te amar Você pra mim é tudo Minha terra, meu céu, meu mar
Preguiçosa como toda manhã de segunda feira (deixa!) Hoje eu levanto e faço teu chá Mais 5 pro cê cochilar no nosso abrigo Deixo cê volta a dormir se prometer que vai sonhar comigo Sem perceber, vô botando o vinil pra tocar De repente é hora da senhora levantar (vai!) Esfrega os olhos, boceja, reclama Dá uma risadinha, um abraço, diz que me ama Resmunga no caminho do banheiro Ranzinza, reclama desde o horário até a água do chuveiro (Eu) Rio de alegria enquanto ouço qual vai ser a do teu dia Cê fala do bem que te faz a minha companhia Tem que ver uma responsa na cidade, me liga Te busco na volta não importa se for tarde O que nunca é quando se trata disso, amor (Então) Tem problema não Sorrindo vô busca minha fulô
(Refrão) Quero te encontrar, Quero te amar Você pra mim é tudo Minha terra, meu céu, meu mar Quero te encontrar Quero te amar Você pra mim é tudo Minha terra, meu céu, meu mar
A sombra abriga vários triste violento Pronto pra descontar nos outros a dor de ter crescido ao relento Eu preocupado falo: cuidado Cê demora 5 minutos, meu peito fica apertado Por isso vô buscar, peço pro cê ligar Não vô guentar a falta do teu cheiro no meu ar (Nãao!) Penso na vida sem você, não compensa Duvido que existia vida antes da tua presença Em cada dia acho uma nova cor, no mesmo amor Que trouxe minha noção de valor Onde for lembrar do que viso Que é ser nada mais que a razão do seu sorriso Tua ausência tira a bateria do relógio Minha carência, óbvio, dá essa dimensão, amor O sol só aparece se você tá feliz Por isso todo dia vô busca minha fulô
(Refrão) Quero te encontrar, Quero te amar Você pra mim é tudo Minha terra, meu céu, meu mar Quero te encontrar Quero te amar Você pra mim é tudo Minha terra, meu céu, meu mar
No sábado, 04/12, foi ao ar o programa Altas Horas com o Nx Zero como atração musical. Em um certo ponto da noite, a banda chamou o rapper Emicida para cantar junto a música “Só Rezo 0.2”, que consta no novo cd da banda “Projeto Paralelo”.
Quem já conhecia a música pôde perceber que o verso da rapper gringa YoYo, inserida na última parte da música na versão original, foi substituído por um inédito do Emicida, que você pode conferir abaixo com a letra.
Cru, pique alvenaria, tru Buscando só driblar corró e o ódio dos cu da Klu Invisível tipo um assassino de olho azul E como quem só vê Gugu, vai querer ser zum-bi? Se fosse em outros tempo tenso, neguim Penso, diria que nada disso era pra mim Escapulário, sorriso esquisito, culpa de santo Expedito Cabelo molhado, cor de terra e mal visto Longe de vírgulas e rinocerontes Sem rastro no barro, eu trouxe o sorriso de um monte Obrigação de ser insuperável, pela raça Ainda herdar a desgraça de ser pedra e vidraça Então, seja como Deus quiser Não posso passar por baixo ou no “cadê o choffer?”
A ligação do esporte com o RAP já vem de longe, principalmente com os “esportes de rua”. Esportes que são costumeiramente praticados nos bairros, em quadras poliesportivas ou na própria rua, como basquete e futebol, já são inspirados pelo RAP há muito tempo, não apenas por serem ouvidos pelos próprios participantes, mas também por eles serem uma das diversas raízes formadas pela cultura de rua.
Entretanto, o que chamou a atenção há alguns meses atrás foi a representação dessa ligação ser mostrada em rede nacional por um canal como SporTV e por uma marca como a Nike. Muitos já sabem que estou falando do ocorrido com Rashid e Emicida.
Emicida e os vídeos do Nike5
Faz um tempo já que esses vídeos tão rolando na internet, e quase todos já devem ter visto, mas não custa nada dar uma incrementada na história toda.
Quem acompanha o rapper tá ligado que a relação dele com a Nike não é de hoje. Na mesma época em que havia sido indicado a três VMBs, Emicida padronizou seu próprio boot, gravando os dizeres “A rua é nóiz” e o símbolo “//\//” nas laterais.
Tênis da Nike do Emicida com inscrições “A rua é nóiz”.
Só pra completar, é desse acontecimento que saiu a linha “MCs escrevem frases pra Nike, a Nike escreve frases pra mim”, da música “É Como Um Sonho”.
Bom, voltando ao assunto em questão, os vídeos do Nike5 mostram dribles “inventados” por jogadores das quadras de rua no Brasil e ao fundo versos do Emicida, a produção do som é do Casp Beatz.
Rashid e o basquete no SporTV
O nome do Rashid vem crescendo muito no meio do RAP e agora também em outras vertentes. Como eu já disse, a ligação entre o basquete e o RAP já vem de muito tempo.
Aliás, quem já não ouviu falar de jogadores famosos de basquete que gravaram “alguns RAPs”. Então, o canal SporTV resolveu aproveitar essa ligação e escolheu o RAP para sonorizar sua chamada para as transmissões de basquete do canal. Ficou assim:
Sou muito a favor desse tipo de divulgação do RAP. Ainda mais por essa ligação com a própria cultura de rua, com o Hip Hop. Tanto Emicida quanto Rashid vêm fazendo um trabalho muito bom em suas músicas, o mínimo de se esperar é que se destaquem e quebrem essa barreira do RAP ser só underground, como se os adeptos desse estilo musical fossem obrigados a ficarem longe da mídia, quase que no anonimato.
Se for feito com qualidade, se for feito em prol da música e da sua divulgação, estendendo-a pelo maior número de regiões, então, que mal tem?
Eu nunca tinha ido a um show antes. E eu nem estou me referindo apenas ao RAP. Nunca havia ido a um show, independente do gênero. Talvez por ser do interior de Santa Catarina e não ter tido muitas oportunidades, ou, pelo menos, não ter tido as oportunidades que queria. Enfim, eu nunca tinha ido a um show antes, e era assim que precisava começar.
Conheci o trabalho do Emicida a partir de uma busca no youtube por “freestyle brasil batalha de rima”, no fim de 2009. Da admiração pela improvisação talentosa e cheia de conteúdo, nasceu a admiração pelas letras inteligentes, as citações pra vida toda, as mensagens, o aprendizado e todo o protesto de quem ama o que faz. Não é à toa que a primeira música que ouvi foi “Cidadão”.
Tava na hora de conhecer tudo de perto, sentir o clima da parada, ver qual era a real de tudo isso. Ingresso reservado pra pegar na hora, juntar uns trocado pro buzão e se jogar no mundão do desconhecido, porque ia ser tudo novo: a cidade, as pessoas, o show.
Emicida faz show em Joinville/SC no lançamento do grupo V.O. Foto: Divulgação.
Quem já foi em um sabe: é quente! Um show de RAP não é apenas um show, é uma confraternização. O clima, a troca de ideias, as pessoas, a reunião de uma cultura inteira, parece aqueles almoços de família do “Poderoso Chefão”.
Sem contar que a ocasião era mais que especial. Além da presença do Emicida, um dos grandes expoentes da cena atual, tínhamos ainda DJ KL Jay, que dispensa apresentações, e o lançamento do segundo disco do V.O. (Versão Original), grupo de RAP local, motivo de toda celebração.
Quanto mais a hora se aproximava, mais a expectativa e a ansiedade cresciam. Mal eram 20 horas e a gente já tava na frente da casa que ia acontecer o baile. Trocamos uma ideia com outros presentes na espera, e isso me mostrou o quanto é fácil se enturmar e fazer parcerias quando a humildade prevalece na relação. Por isso as pessoas que vivem por isso, pela cultura de rua, usam tanto a expressão “família”, mas isso é assunto pra outro post.
O show foi muito louco! A gente tinha a informação que o Emicida entraria entre 1 e 2 horas da manhã, mais ou menos. Acabou atrasando um pouco, mas não foi problema. Claro que as pernas ficaram pesadas e as costas doeram, da viagem, de tanto caminhar pela cidade e por ficar em pé quase todo esse tempo, mas toda a emoção e satisfação de estar ali fazia com que “todos os problemas” ficassem pra segundo plano.
Mesmo subindo no palco depois das 3 da manhã, o rapper paulista levantou a plateia que lotava a casa. Foto: Divulgação.
A apresentação do V.O. foi inspiradora. Não tinha tido a oportunidade de conhecer o trabalho deles até aquele dia, mas levantaram a galera e esquentaram o lugar, com as músicas do novo cd e também com a participação de convidados.
Emicida entrou logo depois deles (entre as 3 e as 3:30 da manhã) e depois veio o KL Jay, infelizmente que tenha sido tão tarde, muitos já tinham ido e não puderam curtir um dos maiores Djs brasileiros.
Com duração de 1 hora, mais ou menos, ele cantou músicas de seus dois primeiros trabalhos: “Pra quem já mordeu um cachorro por comida, até que eu cheguei longe…” e “Sua mina ouve meu rep tamem…”. Impagável. Não só pela presença de um grande nome, mas pelo calor e vibração que isso passa pra todos presentes.
“Grana é importante, mas por que cê fez o seu primeiro show?”, tenho certeza que este é um dos grandes motivos:
A empolgação contida nas pessoas durante o show foi de outro mundo. Cantando junto as músicas do começo ao fim, levantando a mão, berrando, pulando. Toda dor do corpo desapareceu quando Leandro subiu ao palco e os “N” foram erguidos, a energia recebida de todos foi algo renovador pra mim. No momento eu lembro de ter pensado: “esse é o meu lugar…”
Eu pergunto pra você: em que outro gênero musical você veria isso? Essa integração do artista com o público. Essa visão reforça ainda mais a ideia de “família” que uns tanto criticam. Quem vê de fora diz que o RAP tá morto, quem tá dentro acredita que essa é uma das melhores fases. O RAP não é estar na mídia, o RAP está nas pequenas coisas, nos detalhes, no sentimento de quem o vive.
E vem coisa pesada por aí! Aproveitando a facilidade da internet em espalhar a mensagem, Emicida gravou um vídeo dentro da Laboratório Fantasma, com uma rima inédita intitulada “Reality Show“.
Adepto assumido da tecnologia, o rapper, que acumula milhares de seguidores no twitter e fãs no Facebook, tem se aproveitado de forma ampla das redes sociais.
Pra manter o seu nome na boca do povo, ele gravou um vídeo sem firulas, só com câmera, batida e rima. A inédita foi intitulada “Reality Show” e espera-se que se torne uma faixa de algum CD próximo.
Os versos foram muito bem recebidos pelo público que até comentou ser a volta daquele Emicida de “Pra quem já mordeu um cachorro por comida, até que eu cheguei longe…“.
O comentário da volta do Emicida ao que era no seu CD de lançamento não é totalmente equivocado. Digamos que “Reality Show” mostra o lado do RAP mais pesado, que esteve bastante presente na primeira mixtape.
Assim como no BBB e outros “shows de realidade”, Emicida fala que o nosso dia a dia está cada vez mais vigiado e que o ser humano está cada vez mais frustrado e também mais robotizado.
Uma realidade completamente diferente da nossa é jogada na nossa cara todo dia, quando ligamos a TV, por exemplo, e desejamos cada vez mais ter essa vida boa, mas sem o desejo de trabalhar e fazer acontecer.
Abaixo cê confere os versos na íntegra:
Letra: (Achou algum erro? Corrija nos comentários!)
Eu já vejo os chip dentro dos corpo sendo moda Rastreando o filho pelo GPS, vai ser foda Te despertando nas manhãs, pra que não esqueça Desligando os talibã que levantar a cabeça O celular, com toda função que precisar Pra não ter como não ter Não ter onde se esconder Vão te achar, te perseguir, consumar, consumir Aniquilar, iludir, presentear, com isso aí Conforto pra alimentar sua preguiça Cê não vai conseguir correr quando notar areia movediça Relógio pra dar a impressão De que o tempo tá na sua mão Fingindo que te dão poder de decisão, jão Refém do teu gosto, viciaram teu corpo Em poucos instantes, cê é loco, acima de nossos coco Sirene, hélice De quem dá cabo, transmite via satélite Tua vida é bosta Boa é a dos outros, que a TV mostra Mescla furiosidade, depressão, no cidadão que gosta De manter a aparência com tapinha nas costas Chama de inteligência, nunca dá uma resposta Hipocrisia mais informação picotada te faz condenar quem não concorda Sem fazer quase nada, te fez amar dinheiro e odiar trabalho É óbvio onde vai dar: em frustração, caralho!
As maquiagem forte esconde os hematoma na alma Fumando calma ela observa os faróis que vem e vão Viver em vão, os que vem e não te tem São, se necessário, homem de bem, fujão Que não aguentou ser solitário A mesma grana que compra o sexo, mata o amor Traz a felicidade, também chama o rancor As madruga que testemunha, vermelho sangue na unha Sem nome, várias alcunha Dentro da bolça de punho Garota propaganda da cidade fria em seus caminhos Um milhão de seres, um milhão de seres sozinho Sonha como se não vivesse Vive se perguntando por que que não morre Mistura lágrima e suor no corre Conta dinheiro no banco do passageiro e só Que vira leite pro filho ou 15 gramas de pó Foda-se se é erro, quem fez o certo foi Jesus E cês agradeceram como? Pregando ele numa cruz
Refrão: (2x)
Cortando as hora com um casaco de vison No olho a cor tá combinando com o batom Atenta nas buzina ela vai pelo som Escrevendo sua história com neon
Piscando “Motel”, às vezes falha Autodidata aprimora o estilo enquanto trabalha E se flagra chorando em frente ao espelho Bola mais um, acende, puxa, disfarça seu olho vermelho Volta, seu novo amor tá de partida Ele espera acabar a noite, ela espera acaba a vida Cada cigarro leva um ano de sofrimento Ela manda um maço e de novo tá pronta pro arrebento Ri com os traveco no breu, com o fumo que a rua deu Entra no carro se lembrando das amigas que morreu Sampa, pra quem vem de fora é uma beleza Mas a única coisa que todos têm aqui, é certeza Seu pai só reclamava, enquanto trampava ela dormia Isso não deixava a vida nos conforme, pra se redimir Ela vaga todas as madruga, aí Fazendo um din como pode enquanto ele dorme.
Refrão: (2x)
Cortando as hora com um casaco de vison No olho a cor tá combinando com o batom Atenta nas buzina ela vai pelo som Escrevendo sua história com neon
Aí A vizinhança, réu, com um mar de juiz, papel Afago pra lá, infeliz, mais um trago, miss Com sorte, passaporte, América do Norte, please Europa, diz “ah, um sonho”, quis Assassinada por um rato num motel barato Agoniza na cama, drama, estatística, fato Um nóia sujo, advogado, bêbado, confuso Pai de família, pastor com a fé em desuso Matilha de dois, onde homem grande é vilão Cliente frio, produto sem coração Corpo marcado, cicatriz de gado Ao relento, vai pra coleção de sofrimento Princesa dos esgoto sujo, seio novo sobre o bojo Virgem em solo inimigo, nojo Esperança triste, adubo do sonho da infância pura Buscando em si se isso ainda existe
Refrão: (2x)
Cortando as hora com um casaco de vison No olho a cor tá combinando com o batom Atenta nas buzina ela vai pelo som Escrevendo sua história com neon
Emcida foi o percursor de uma das maiores mobilizações virtuais em prol do rap no Brasil.
Conquistas, quebra de recordes e boca a boca sempre foram palavras muito ditas durante a história de vida de Leandro Roque de Oliveira, o Emicida. O rapper paulistano, 25 anos, detentor de dezenas de títulos em batalhas de rima e um dos grandes nomes da cena atual brasileira, foi o percursor de uma das maiores, senão a maior, mobilizações virtuais em prol do rap no Brasil.
No dia 9 de setembro, ia ao ar a entrevista de Emicida no Programa do Jô. Além de toda a movimentação e os comentários prévios, pouca gente sabe que parte do motivo que levou Leandro ao programa foram os milhares de e-mails mandados por seus fãs para a produção.
A ansiedade era grande e a expectativa criada fora imensa. E como estamos falando de uma mobilização virtual, vale a pena constatar que as mídias sociais ferviam.
Um tópico especial para a entrevista, na comunidade E.M.I.C.I.D.A, no orkut, recebia centenas de novos comentários. No twitter, tanto o próprio rapper quanto integrantes da Laboratório Fantasma aqueciam os interessados e a expectativa de todos não parava de aumentar.
O resultado não podia ser diferente. Além de uma entrevista descontraída, um show animado, Emicida ainda emplacou o topo do “TT São Paulo” e do “TT Brasil”*, deixando também as expressões “#aruaénóiz” e “Emicidio” (nome de sua nova mixtape) entre as mais faladas do País.
Além disso, Emicida estava entre os usuários mais “retweetados” e mais citados também. E a madrugada reservava mais uma novidade: de tanta gente falando do rapper, a expressão “Emicida” foi parar em 5º no TT Mundial, fato antes nunca ocorrido com o rap no Brasil.
Isso apenas prova que o que vinham falando, de o rap ter morrido, foi apenas coisa de falador, sem nenhum contexto. O rap pode ainda não ter conseguido o melhor espaço nos festivais e eventos por aí, mas com certeza está crescendo.
E com seus fãs devotados e entregues de corpo e alma ao estilo e a cultura de rua, tende cada vez mais a buscar seu espaço e mostrar-se às mídias com toda a força que tem, com toda importância e ideologia, não como um arrastão, imagem que muita gente quer pintar por aí.
Por muitos, ele é considerado o maior expoente do RAP Brasileiro na atualidade, por outros é uma modinha que se vendeu. Entre mortos e feridos, amantes e odiadores, uma coisa não há como negar: ele foi o rapper que mais fez barulho em 2010. Toda essa descrição só poderia se referir a um nome: Emicida.
E com todo esse barulho feito no ano passado, o rapper do Cachoeira não poderia começar o ano de um jeito diferente: fazendo ainda mais barulho.
A primeira grande novidade veio com o anúncio de gravações no Rio de Janeiro para um novo clipe, deixando todos os fãs e apreciadores de sua música ansiosos. Mais tarde o anúncio oficial e o lançamento do Teaser que mostravam a música “Rua Augusta” como novo “trabalho áudio-visual” da equipe Laboratório Fantasma.
Como divulgado diversas vezes no twitter pelos integrantes da equipe, o material adquirido durante as gravações pode ser transformado futuramente em um documentário, e vendo o teaser podemos perceber isso.
Com certeza não será apenas um clipe de som/imagem, provavelmente mostrará uma história, contando um pouco do cotidiano das mulheres retratadas na letra do rapper. O que, pra mim, é uma grande ideia.
A princípio, torci para sair o clipe de “I Love Quebrada”, entretanto, a história que a música “Rua Augusta” conta é algo que abre novos horizontes, que pode ser moldado em algo bem maior e assim se fazer um clipe bem melhor!
Sem dúvida, continuo esperando o clipe de “I Love Quebrada”, mas fiquei bem contente com a escolha que fizeram, promete ser um ótimo clipe.
Outra grande novidade do Emicida, e essa fez muita gente arregalar os olhos, foi a confirmação da presença do rapper brasileiro no Coachella Festival 2011 na Califórnia. O evento, que é um dos grandes festivais de música do mundo, conta com apresentações do nível de Kings of Leon, Kanye West, the Chemical Brothers e muitas outras bandas “gigantes” no cenário mundial. Além do Emicida, o Brasil ainda tem The Twelves, Cansei de Ser Sexy e o DJ Marky representando.
As duas primeiras perguntas que vieram a minha cabeça ao ver a novidade foram: será que o Emicida algum dia pensou que chegaria a se apresentar lá fora? Como será que ele reagiu ao saber da parada? Bom, são perguntas que vão ficar sem resposta, mas uma coisa eu posso dizer: eu fiquei orgulhoso pra caramba desse nosso RAP Brasileiro.
Fazia tempo que não havia algum nome brasileiro nesse estilo musical que fizesse tanto barulho por aqui a ponto de ser chamado pra cantar por lá. Acho que o último rapper brasileiro que vi se apresentando no exterior foi o Marcelo D2 e, na real, acho que nunca ouvi falar de nenhum outro que tenha feito isso (claro que deve ter tido, o que quero ressaltar é a dificuldade de se chegar a tal ponto).
Minha torcida é para que isso se repita mais e mais vezes, com vários outros nomes do nosso RAP porque por mais que a gente veja isso de fora, dá um puta orgulho! Espero que o Emicida chegue lá e represente forte como sempre fez por aqui e que role muitos “put your hands up” e “make some noise” na imensa carreira que ele ainda tem pela frente.
Lineup do Coachella 2011 com a presença do Emicida.
Quatro anos depois do CD “Mudança”, o Inquérito inicia oficialmente um novo ciclo com o lançamento da música “Corpo e alma”, que conta com a participação do Emicida.
Além de ser a faixa-título do novo disco, o som também tem a responsabilidade de dar as primeiras impressões ao público e deve sintetizar o que vem por aí.
“Esse som é o resultado de uma pesquisa musical em que tentamos unir o eletrônico e o orgânico, o clássico e o contemporâneo, o sample e os metais, com uma poesia madura na letra, com levada, métrica, técnica… Mas, acima de tudo, com muito coração porque antes pensamos muito em cada detalhe, mas na hora da execução quem dirige é a alma!”, conta Renan Inquérito.
Aliás, a própria participação do Emicida dá um requinte a mais. Afinal, ele é o produtor-executivo e grande entusiasta do novo CD do grupo.
“É uma experiência completamente nova e tem a pressão que é atuar no trabalho de alguém de quem você é fã, e eu sou um fã do Inquérito. Considero o Renan um dos melhores letristas que temos no país. Digo isso no campo da música e da poesia. Pode parecer ambicioso demais por estarmos na terra de Mário Quintana, Cartola, Mano Brown ou Vinícius de Moraes, mas acho que o Renan cuida da poesia de uma forma muito especial e eu admiro muito isso. Tudo é muito inteligente, a poesia é de muito bom gosto, que eu ouço e saio reclamando: por que mais pessoas não escutam Inquérito? Talvez minha chegada no projeto possa ter essa função: pensar junto deles sobre como podemos fazer essa poesia tão rica tocar mais corações”, pontua o rapper paulistano.
Uma de suas mais visíveis contribuições deve se encontrar na questão dos audiovisuais. Depois de acertar em cheio com o formato no disco “O glorioso retorno de quem nunca esteve aqui”, Emicida importou a ideia da produção de um web vídeo para cada faixa com imagens de estúdio; todas dirigidas pelo Vras 77.
Assim, a importante missão de espalhar com maior alcance as criações do Inquérito já começa a se desenrolar. Já era hora. Embora seja um dos grupos mais respeitados do RAP Brasileiro, não chegou nem perto da popularidade merecida.
“Depois de muitas reflexões, temos o Renan em um momento de maturidade lírica muito interessante, o DJ Duh norteando muita coisa – aliás, ele é um gênio, foi uma honra estar mais próximo dele neste processo. O Pop Black também colocou muitas ideias interessantes no processo e pelo momento, pelo tempo e pela intensidade, não tinha como não ser de ‘Corpo e Alma’”, destaca Emicida.
O álbum ainda deve contar com as participações de KL Jay, Rael, Ellen Oléria, Alexandre Carlo do Natiruts, Arnaldo Antunes e Roberta Estrela D´Alva.
Embora toda condução e direção musicais sejam feitas pelo DJ Duh, o disco ainda trará as produções do próprio Pop Black (Black Beats), Marcelo Guerche (produtor do “Mudança”), duas faixas produzidas pelo Damien Seth, e uma do Quilombo Louco Beats, de Teresina (PI).
“Corpo e alma” ainda não tem previsão de lançamento, mas tudo indica que sairá ainda em 2014 ou no comecinho de 2015.
Eu mal conhecia a AJULLIACOSTA. Eu já havia visto várias recomendações do trabalho dela e escutado alguns versos soltos, mas eu não conhecia o som dela de fato até assistir ao seu (até então) recém-lançado We4Sessions. Se tivesse fazendo um vídeo react, seria um bem estranho porque fiquei sem palavras; a rapper fez uma apresentação irretocável.
Aliás, uma apresentação com banda inteiramente composta por mulheres, que, na hora, já me lembrou da Duquesa no Tiny Desk Brasil, a versão brasileira de um projeto global de música que oferece apresentações mais intimistas e acumula milhões de views; ela e a Tássia Reis são as únicas pessoas do rap a participarem do projeto, que já teve nomes como Gilberto Gil, Sandra Sá, Arnaldo Antunes e Liniker.
Ou seja, não só mais mulheres estão fazendo rap, como o rap feito por estas mulheres está ganhando cada vez mais destaque; mais mulheres estão consumindo rap e mais homens estão consumindo raps feitos por mulheres. Dá pra dizer, com tranquilidade, que as mulheres são a cara do rap no Brasil hoje e tendem a ser no futuro também.
E isso é maravilhoso.
Foi um longo caminho até aqui. Uma caminhada que eu, definitivamente, não tenho nem sola de sapato suficiente pra recontar, mas recomendaria começar do começo com o Geledes – Instituto da Mulher Negra e o Projeto Rappers, que, embora não fosse exclusivamente sobre rappers mulheres, continha muitas das pioneiras do hip hop no Brasil.
Lá, surgiu também o Femini Rap, um “espaço de atenção específico para a discussão das questões das jovens negras em geral e delas no movimento hip hop em particular e de conscientização das bandas masculinas sobre as questões de gênero sobretudo as relativas aos problemas de concepção, maternidade e paternidade responsável, abuso de drogas e DST’ s e Aids”.
Nas décadas de 80/90, dava pra contar nos dedos as rappers que conseguiram algum tipo de visibilidade. Dina Di, um dos nomes mais respeitados do rap brasileiro, dizia que se vestia com roupas mais largas, mais masculinas, para ver se os caras prestavam atenção no que ela falava.
E fica mais triste porque a rapper faleceu, precocemente, ao dar sua filha à luz. Não precisa ser Enola Holmes pra perceber que, numa sociedade que mata mulheres no parto por descaso e que o número de feminicídios só aumenta, seria muito mais difícil para uma mulher ser o que ela realmente quiser, do jeito que ela realmente quiser.
E mesmo quando elas conseguem sobrepor essa dificuldade sociocultural, ainda esbarram nas dificuldades de visibilidade no próprio rap.
Há 8 anos, escrevi sobre como ainda haviam muitos jacks com panos passados na cena e o quanto o trabalho das mulheres era desvalorizado por isso. Na maioria das vezes, elas eram invisibilizadas e era necessária uma busca ativa para escutar raps feitos por mulheres.
Hoje, esse esforço já nem precisa ser tão grande, pois existe pelo menos uma dezena de nomes que aparecem nas manchetes a cada lançamento.
De acordo com um levantamento feito pela Regina Lemmi pro Jornal da USP, em 2024, a média de ouvintes mensais da Duquesa no Spotify, por exemplo, era um quarto da média do Matuê, um dos expoentes mais populares da cena. Por mais que isso pareça pouco, eram impressionantes 1,4 milhão de plays para a rapper baiana; Tasha & Tracie (1.303.149 de ouvintes) e Ajulliacosta (768.942 de ouvintes) vinham logo atrás.
Nesta mesma pesquisa, Regina mostrou um gráfico comparando as visualizações no Youtube do primeiro lançamento e o lançamento mais famoso de seis rappers da nova geração.
Gráfico publicado por Regina Lemmi em outubro de 2024 no site do Jornal da USP (“O rap feminino em ascensão na arte das rimas“) mostra o crescimento em visualizações no Youtube das rappers da nova geração.
E isso lá em 2024. Hoje, estes números não só estão mais altos, como, com certeza, estas rappers possuem vários lançamentos igualmente bem ouvidos. Fora que estas são apenas seis delas; o clipe de P.I.T.T.Y. (Parecendo Uma Cafetina), da NandaTsunami, por exemplo, já tem 24 milhões de visualizações e só se passaram 10 meses do lançamento.
Mesmo as que não estão nos holofotes conseguem reunir talentos e recursos para produções de destaque com uma frequência que até pouco tempo atrás era impensável.
Recentemente, a Tamara Franklin quebrou tudo com o clipe de “Mala”, que ela mesmo dirigiu com Giulio Cesare100erross. Gosto de destacar sua direção porque o trabalho é impecável; a estética é bonita demais e casa muito bem com a tensão das ideias e a letra; um conjunto implacável. Isso me lembrou que já lá em 2014, Tamara figurou entre os 30 clipes que eu recomendei assistir no ano, com “Anônima”. Aliás, eu recomendo em 2026 que você relembre 2014.
Na semana seguinte ao lançamento da rapper mineira, Majis apresentou “Fora da Caixa” e destrinchou a cena com uma caneta mais afiada que qualquer Santoku. Sobrou humor ácido e várias referências, que me fez lembrar um pouco da “Sulicídio”, embora com uma temática diferente; talvez, se a rapper fosse homem, teria ganhado o mesmo espaço que seus colegas pelo “estrago” feito.
Até porque, não foi só dizer que mata “trapper ruim tipo Ajullia no The Box” ou comentar os artistas na gaveta da Hash, ela também apresentou um clipe na mesma pegada, que complementa e dá até uma nova camada às rasgadas da letra.
O trabalho foi dirigido por Vini Watanabe, que já havia feito o clipe de “BPP”, outro exemplar da Majis que definitivamente deveria ter ganhado mais visibilidade; entre reportagens da polícia KKK e referências do filme “Pecadores”, a rapper revisita o Black Panther Party (Partido dos Panteras Negras, em português) para contra-atacar o racismo e embranquecimento da música, especialmente do próprio rap.
Mais do que um ótimo trabalho, “BPP” é necessário, principalmente em um momento que tentam colocar em xeque o que sempre pareceu óbvio: o hip hop é um movimento negro e de esquerda; consequentemente, o rap também. O rap nasce, cresce, se desenvolve, cria e se recria dentro da cultura negra defendendo pautas que são quase que exclusivas da esquerda.
Enfim, Majis, Tamara, Duquesa, Ajulliacosta são só a ponta de um iceberg que contraria toda crise climática e fica cada vez maior e mais sólido. É claro que é apenas um recorte, mas este é exatamente o meu ponto: hoje, é impossível fazer qualquer recorte do rap brasileiro sem incluir, pelo menos, uma mulher… ou quatro!
Inclusive, cá entre nós, dava pra sintetizar de uma forma muito melhor este texto só com esta parte do verso da Maria Preta:
Enquanto os menino fala que sempre sonhou ser rapper Nós sem tempo pra sonhar, trampando muito sem chefe Ainda arruma tempo pra ser bela e inteligente Por isso vocês fala mal, porque não anda com a gente Nós serve identidade, cunt e faz espetáculo Os caras no palco não oferece nem o básico, não entende de jogo e quer falar do tático, sem sabor nem nutriente, igual fruta de plástico Diz que é o movimento mas não sustenta a fala Chama de rap feminino pra dizer que não é legal não ia sobrar nem o vulgo se puxar a capivara quero ver falar que as mina não é rap nacional
Novas rappers rimando traz inúmeras novas possibilidades pro rap como um todo. Novas visões de mundo, novas pautas e até um novo público que, invariavelmente, vai acabar consumindo outros pontos da cultura também.
Além de inspirar novas mulheres a iniciarem suas carreiras, também faz com que nomes que surgiram em décadas passadas voltem aos holofotes com gás renovado. Em entrevista ao Mano a Mano, Negra Li comenta sobre o impacto da nova geração.
“Gosto muito do trabalho; gosto de como elas se impõem; como elas sabem o que querem. Isso é muito legal poder ver”, comenta a rapper. “Quando eu vejo, adoro, porque elas me ajudam também: quando vejo bastante mulheres produzindo, fazendo sucesso, elas me dão gás pra querer continuar, me dão ideias, me enchem os olhos”, completa.
Não à toa, em 2025, ela lançou “O Silêncio Que Grita”, um dos seus álbuns mais potentes, e, talvez, o que mais se aproxima do ritmo e poesia apresentados em “Guerreiro, Guerreira“, disco lançado com o Helião em 2004.
Inclusive, no novo trabalho, Negra Li lança uma nova versão de um dos clássicos daquele primeiro álbum: “Olha o Menino 2.0”, que conta com a parceria do Djonga, reforça e atualiza as dificuldades dos jovens negros cantadas na original, com uma roupagem moderna e novos problemas (embora muitos dos antigos ainda permaneçam).
Traçando uma espécie de paralelo, a rapper lançou também “Uma menina”, que foca em grandes problemas estruturais femininos na nossa sociedade: abusos/estupros, gravidez indesejada, descrença e desemparo sociais, feminicídio. A faixa conta uma história tão real que parece tirada de uma biografia/reportagem (das muitas que, infelizmente, vemos por aí); é uma das mais impactantes do disco.
Talvez não seja coincidência que, também em 2025, a Stefanie lançou um disco igualmente poderoso. Inclusive, “BUNMI” é o primeiro solo da rapper, que até então, embora tenha uma vasta carreira, só havia lançado singles e álbuns em grupos.
Até por isso, daria pra carimbar que já nasceu como um clássico. Mas, não dá pra deixar de falar neste presente que ela nos deu sem falar na versão 2.0 de “Porque eu rimo” ou, como ela chamou, “MAAT”. A rapper juntou Rashid, Kamau, Emicida e Rincon Sapiência para, novamente, marcarem uma época do rap brasileiro. (Um detalhe curioso: a sequência de versadores é a mesma, só trocando o Kamau pela Stefanie pra fechar com o/a artista principal do disco, respectivamente).
Contrariando todas as estatísticas e expectativas de quem acompanha este autor que vos escreve, MAAT não é a minha favorita: “Fugir não adianta” é transcendental (a Mahmundi chega de um jeito que parece que foi feita pra este som); “Desconforto” é fundamental; e “Outra Realidade” é imbatível.
Stefanie com Cris SNJ, Iza Sabino e Nega Gizza é a cypher que todo mundo precisava e não sabia. Aliás, o verso da Cris SNJ precisaria de um texto exclusivo só pra falar dele, então, quem sabe… (o jogo de palavras que ela faz rimando “dez” com “dez”, mas dando um diferente significado para cada uso do numeral é sensacional).
O que fica claro nos novos trabalhos da Negra Li e da Stefanie e de toda essa nova geração é que o rap, definitivamente, deu uma guinada feminista. As mulheres estão cada vez mais confortáveis ou, pelo menos, menos desconfortáveis de falar sobre a luta por igualdade de gênero.
Percebam que eu falei “guinada feminista” e não “se tornou feminista” ou algo do gênero. O rap ainda é e será por tempo um movimento machista. Talvez, com a maior presença feminina na cena, este “tempo considerável” seja reduzido exponencialmente, mas as desigualdades ainda são grandes.
A pesquisadora e jornalista Nerie Bento, em entrevista ao Alma Preta, resume a questão de maneira muito prática: “Antes, uma mulher precisava que grandes nomes do rap dissessem que ela era boa para ser reconhecida. Hoje, isso mudou. Elas construíram um público próprio. No entanto, se antes elas ganhavam dez e os homens cem, hoje elas ganham cem e eles mil”.
Se no contexto social parece óbvio que o protagonismo feminino é uma necessidade, ele também é no contexto cultural e da própria sobrevivência do rap. Não é uma questão de cotas ou apenas de combate ao machismo, mas de modernidade, refino e qualidade do bagulho mesmo.
As mulheres conquistaram esse protagonismo com rimas e melodias melhores; elas são a cara do rap, seu presente e o seu futuro. Até que enfim.
Quer um sinônimo maior de pedrada do que esses dois juntos? Os “irmãos” do Lauzane são dois grandes nomes do RAP Brasileiro e mostram isso a cada som que lançam. Quando se juntam então, fica foda!
Com beat do próprio Rashid e mixagem do DJ Caique, a música “Plantar o Bem” fala de conquistas e vitória e mostra o quanto a gente precisa plantar essa semente boa nas outras pessoas e em outros lugares.
O quanto a gente precisa cativar os outros a fazer o bem também. Mostra também o quanto é importante a gente dar valor às coisas e correr atrás dessas coisas que tem valor, de verdade!
Abaixo cê confere a letra:
Letra:
[Projota]
E aí, irmão, me diz como é que cê tá? Cê tá bem? Tá bem memo? E cê tá plantanto esse bem? Você tá dividindo esse bem? Então esse é o momento… Foco, força e fé!
[Rashid]
Sou pai dos meus irmãos Irmão dos meus amigos Mente aberta, invisível pros meus inimigos Sou fã dos meus parceiros, parceiro dos meus fãs Arrombei portas com a minha fé, violei divãs Se pans, eu já quis ter um vans, memo Já defendi meus clans. apanhei mais que pan-deros Mas as manhãs disseram que não Disseram que eu não sou como baratas pra viver preso em banheiros Guerreiros de janeiro a janeiro Eu já me senti só mais um no formigueiro Ninja pra me esquivar do mal, tive cabreiro E entregar mensagem custe o que custar tipo um carteiro Nossa semente no terreiro Que ela brote e cresça a árvore mais bonita Porque a luz no fim do túnel é uma placa que diz viva E só morra pelo que você acredita
Pra viver, pra viver, tem que plantar o bem (Pra colher, espalhar, acolher quem te amar, vem!) Pra viver, pra viver, tem que plantar o bem (Pra colher, espalhar, acolher quem te amar, então vem!)
[Projota]
Olha lá os muleque de skate, que vem e que vão Em busca de um sonho ou em busca de um corrimão Em busca do simples viver, igual eu Ser melhor do que fui ontem é o plano que minha alma escreveu Mostro o mesmo sorriso, aperto cada mão Ando nas mesmas ruas, oro por cada irmão É tão complexo o sistema que faz bater o coração Mas é tão simples o motivo dessa bateção Bluetooth, blueray, Mac, XBox É bom, mas não emociona, nem as molas do seu Nike Shox Tinha polícia em quadro, contas pra pagar Não tinha flow, não tinha show, só a vontade de cantar Vi um menino de rua, na chuva Estremecido em um salgado que eu tinha comprado e nem comia Agradeceu, correu pra lá, mas deu pra ver, ele sorri Ah, se eu soubesse que o segredo tava ali, de que…
Pra viver, pra viver, tem que plantar o bem (Pra colher, espalhar, acolher quem te amar, então!) Pra viver, pra viver, tem que plantar o bem (Pra colher, espalhar, acolher quem te amar, então vem!)
[Projota]
Foi tanto tempo pra aprender As coisas nem sempre são do jeito que a gente vê Tem que olhar com a alma, mano, muita calma Existe algo de bom que foi guardado pra você Caleja o coração porque a vida é uma provação Escolha são, definição, da queda ou da revolução A chance do jogo virar, a sorte ajuda quem lutar
[Rashid]
Dois olhos pra ver, um coração pra crer Duas pernas pra fugir desse Saara A mente pra saber que uma mão extendida ao inimigo Tem mais efeito que um soco na cara E o bloco não para, vai Multidão na praia, cai-çaras E senhoras com produtos do Paraguai Sara quando a chuva cai E faz nascer na sua alma um arco-íris que é a coisa mais rara
Pra viver, pra viver, tem que plantar o bem (Pra colher, espalhar, acolher quem te amar, então vem!) Pra viver, pra viver, tem que plantar o bem (Pra colher, espalhar, acolher quem te amar, então vem!)
[Rashid]
Como você tem vivido? O que você tem plantado? O que você tem colhido? O que você tem escolhido pro seu caminho, meu mano? Fala pra mim… Vamos dar valor para o que tem valor… Um só caminho…