Por que o rap brasileiro votará Lula em 2026

Em 2018, às vésperas do 2º turno da disputa entre Fernando Haddad e Jair Bolsonaro, eu escrevi um texto sobre como o rap me ajudou a contrariar as estatísticas e não votar no Bolsonaro.

Eu falei em contrariar as estatísticas porque morava em uma cidade que mais de 71% dos eleitores votou no até então candidato do PSL naquele 1º turno. Reforcei ainda que se cruzássemos alguns quesitos extras como raça, gênero, idade, nível de escolaridade e orientação sexual, o meu bolsonarômetro iria às alturas.

Mesmo assim, eu votei em Haddad naquele pleito. A minha hipótese era que o rap, baseado na cultura hip hop, teria me dado boa parte das ferramentas para tomar essa decisão.

E eu continuo defendendo esta ideia. De forma resumida, pra não precisar repetir aquela publicação, a cultura hip hop, da qual o rap é um dos principais expoentes, trabalha o senso de comunidade; lutar não só pelo seu bem, mas das pessoas que estão ao seu redor, principalmente aquelas que mais necessitam.

Por isso, a gente fala tanto que o rap deu voz a quem não tinha voz; apontou problemas que ninguém queria ver; e iluminou várias caminhadas que tinham sido apagadas.

Ou seja, é no mínimo hipócrita se dizer parte da cultura Hip Hop e votar em alguém como Flávio Bolsonaro. A família Bolsonaro e o bolsonarismo, como um todo, são a antítese do Hip Hop: eles só pensam neles mesmos; a única família que eles realmente defendem é a deles.

Flávio Bolsonaro, que é o candidato em questão, quer que o trabalhador receba apenas por hora trabalhada, sendo que ele recebe o salário integral mesmo tendo sido o senador com o maior número de faltas em 2026; ele votou a favor do fim da 6×1 depois de muita pressão, mas mesmo assim já indica que deve fazer voltar o regime anterior se eleito; ele é investigado pelas populares “rachadinhas”, que nada mais é do que desviar o nosso dinheiro para o próprio bolso através de assessores e funcionários fantasmas.

Flávio Bolsonaro trabalha diretamente com as milícias, tendo, até 2019, enquanto deputado, homenageado pelo menos 23 policiais e militares declarados culpados ou em julgamento por crimes que vão de homicídio a corrupção. Entre estes se destacam: Adriano da Nóbrega, chefe do “Escritório do Crime”, major Edson Raimundo dos Santos, condenado pela morte de Amarildo, major Ronald Paulo Alves Pereira, condenado pelo assassinato de Marielle Franco.

Aliás, o assassinato da Marielle é emblemático. O já citado Adriano da Nóbrega foi morto muito provavelmente como “queima de arquivo” enquanto foragido da justiça por investigações sobre a morte da vereadora. E Flávio não apenas homenageou o matador de aluguel, mas também, supostamente, teria utilizado a ex-mulher e a mãe dele no esquema de rachadinhas.

E não termina por aí. Recentemente, a revista Piauí descobriu que Flávio Bolsonaro enviou R$200 mil em emendas a pedido de Robson Calixto; mais conhecido como “Peixe”, ele é apontado como elo entre o matador Ronnie Lessa e os irmãos Brazão, condenados como mandantes do crime.

Existem poucas coisas mais anti-Hip-Hop que isto.

Não à toa, estamos vendo talvez a maior mobilização em prol de um candidato na história do rap brasileiro. Uma quantidade avassaladora de MCs, DJs, beatmakers e tantos outros fomentadores da cultura estão se posicionando a favor de Lula para 2026.

“Eu vou na direção dos que estão preocupados com a dignidade do povo pobre nesse país”, comentou o paulista Rashid depois de elencar vários pontos que motivaram seu voto: menor taxa de desemprego, saída novamente do mapa da fome, a isenção de imposto pra quem ganha até R$5 mil e o menor índice de inflação, além da queda no desmatamento.

Já o carioca BK, ao participar de ato no Rio de Janeiro em apoio a Lula, defendeu a importância de estar na rua pela democracia. “É muito importante que a nossa galera do rap tá se posicionando, tá colando do lado certo, tá fortalecendo e defendendo a nossa democracia. Então, é isso, vamo de Lula no 2º Turno!”, declarou ele.

“Eu observei muito nesses dias, várias pessoas falando: ‘o rap tem que ser contra o sistema’, ‘o rap tem que ser contra tudo e contra todos’. Eu acho interessante isso, eu acredito que independente de quem tiver no poder, a gente tem mesmo que ter esse direito, a gente tem que discordar, a gente tem que questionar, mas pra gente ter o direito de questionar, de discordar, a pessoa que tem que tá lá, tem que ser uma pessoa que é a favor da democracia, tem que ser uma pessoa que é a favor do mínimo, do básico de direitos que qualquer cidadão tem que ter”, explicou o mineiro Djonga também em ato pró Lula em Belo Horizonte.

“Muita gente que eu gosto muito e fala assim: ‘ah, eu não vou votar porque votar não vai mudar em nada; segunda-feira eu vou continuar trabalhando da mesma forma’. Vai, cê vai trabalhar, mas não da mesma forma. Eu acho que o mais importante é a gente entender que não é o Lula que vai deixar você rico, mas com certeza o Flávio vai tirar muito dos seus direitos que você tem hoje”, publicou a carioca AJULLIACOSTA em seu perfil no Instagram, antes de elencar, com o auxílio de publicações de jornais reais, direitos que ela considera que serão perdidos num possível novo governo Bolsonaro: vacinas e posto de saúde gratuitos, aposentadoria, fim da escala 6×1.

“Você não vota, você não quer se preocupar com isso, mas você vai de bonde e vai ser prejudicado também. Então, vamo votar nesse 2º turno tendo em mente que quem quer tirar o seus direitos não merece ser o seu presidente”, concluiu ela.

O baiano Baco, talvez um dos mais ativos entre o top 20 de rappers mais ouvidos no Brasil, ao ser questionado sobre apoiar Lula por causa da Lei Rouanet, trouxe a lista dos artistas, de fato, mais remunerados por ela: Gusttavo Lima, Bruno e Marrone, Leonardo, Chitãozinho e Xororó, César Menotti e Fabiano, Zezé Di Camargo e Luciano, Eduardo Costa, Amado Batista, Henrique e Juliano e Fernando e Sorocaba.

“Eu posto as coisas, aí o pessoal fica: ‘Lei Rouanet, Lei Rouanet, tá com medo de perder a Lei Rouanet’. Ó os dez mais beneficiados… quem mais chegou em dinheiro aí, de músico. Vê se encontra o nome do papai aqui. Pesquisa em quem eles votam”, concluiu o rapper.

Eu acho que não é uma questão difícil pra quem tem o mínimo de conhecimento sobre a cultura Hip Hop. Fora todos os benefícios mencionados pelos rappers acima, vale pensar qual foi o único governo que já dialogou com a cultura Hip Hop, que assinou, recentemente, uma lei de incentivo que valoriza agentes e toda cadeia criativa do movimento.

Mais do que isso, se você, como eu, cresceu ouvindo rap, sabe que uma das principais pautas históricas do movimento é a defesa pela educação. A diferença no investimento em educação a favor do governo Lula já seria absurda em comparação com o governo do Bolsonaro pai, mas existe ainda um agravante: Flávio garantiu que fará um Tesouraço, o que ameaça aporte de R$ 104 bi e impõe privatizações.

De qualquer jeito, não tome nada disso como dado. Procure o posicionamento dos seus hip hoppers favoritos, claro, mas também procure as informações por conta própria e chegue nas suas próprias conclusões.

O que não dá pra fazer é não votar no dia 25 e depois pagar de gangster, de libertário, de revolucionário na Internet.

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