*Aviso: 76,87% deste texto (sim, eu contei) foi escrito no dia 26 de maio de 2026. O resto são pequenas atualizações e correções feitas ao longo de quase 3 meses de procrastinação.*
Eu mal conhecia a AJULLIACOSTA. Eu já havia visto várias recomendações do trabalho dela e escutado alguns versos soltos, mas eu não conhecia ela de fato até assistir ao seu recém-lançado We4Sessions. Se tivesse fazendo um vídeo react, seria um bem estranho porque é de ficar sem palavras; a rapper fez uma apresentação irretocável com uma banda inteiramente composta por mulheres.
Uma apresentação realmente muito bonita que, na hora, já me lembrou da Duquesa no Tiny Desk Brasil, a versão brasileira de um projeto global de música que oferece apresentações mais intimistas e acumula milhões de views. Aliás, ela e a Tássia Reis são as únicas pessoas do rap a participarem do projeto, que já teve nomes como Gilberto Gil, Sandra Sá, Arnaldo Antunes e Liniker.
Ou seja, não só mais mulheres estão fazendo rap, como o rap feito por estas mulheres está ganhando cada vez mais destaque; mais mulheres estão consumindo rap e mais homens estão consumindo raps feitos por mulheres. Dá pra dizer, com tranquilidade, que as mulheres são a cara do rap no Brasil hoje e tendem a ser no futuro também.
E isso é maravilhoso.
Foi um longo caminho até aqui. Uma caminhada que eu, definitivamente, não tenho nem sola de sapato suficiente pra recontar, mas recomendaria começar do começo com o Geledes – Instituto da Mulher Negra e o Projeto Rappers, que, embora não fosse exclusivamente sobre rappers mulheres, continha muitas das pioneiras do hip hop no Brasil.
Lá, surgiu também o Femini Rap, um “espaço de atenção específico para a discussão das questões das jovens negras em geral e delas no movimento hip hop em particular e de conscientização das bandas masculinas sobre as questões de gênero sobretudo as relativas aos problemas de concepção, maternidade e paternidade responsável, abuso de drogas e DST’ s e Aids”.
Nas décadas de 80/90, dava pra contar nos dedos as rappers que conseguiram algum tipo de visibilidade. Dina Di, um dos nomes mais respeitados do rap brasileiro, dizia que se vestia com roupas mais largas, mais masculinas, para ver se os caras prestavam atenção no que ela falava.
E fica mais triste porque a rapper faleceu, precocemente, ao dar sua filha à luz. Não precisa ser Enola Holmes pra perceber que, numa sociedade que mata mulheres no parto por descaso e que o número de feminicídios só aumenta, seria muito mais difícil para uma mulher ser o que ela realmente quiser, do jeito que ela realmente quiser.
E mesmo quando elas conseguem sobrepor essa dificuldade sociocultural, ainda esbarram nas dificuldades de visibilidade no próprio rap.
Há 8 anos, escrevi sobre como ainda haviam muitos jacks com panos passados na cena e o quanto o trabalho das mulheres era desvalorizado por isso. Na maioria das vezes, elas eram invisibilizadas e era necessária uma busca ativa para escutar raps feitos por mulheres.
Hoje, esse esforço já nem precisa ser tão grande, pois existe pelo menos uma dezena de nomes que aparecem nas manchetes a cada lançamento.
De acordo com um levantamento feito pela Regina Lemmi pro Jornal da USP, em 2024, a média de ouvintes mensais da Duquesa no Spotify, por exemplo, era um quarto da média do Matuê, um dos expoentes mais populares da cena. Por mais que isso pareça pouco, eram impressionantes 1,4 milhão de plays para a rapper baiana; Tasha & Tracie (1.303.149 de ouvintes) e Ajulliacosta (768.942 de ouvintes) vinham logo atrás.
Nesta mesma pesquisa, Regina mostrou um gráfico comparando as visualizações no Youtube do primeiro lançamento e o lançamento mais famoso de seis rappers da nova geração.

E isso lá em 2024. Hoje, estes números não só estão mais altos, como, com certeza, estas rappers possuem vários lançamentos igualmente bem ouvidos. Fora que estas são apenas seis delas; o clipe de P.I.T.T.Y. (Parecendo Uma Cafetina), da NandaTsunami, por exemplo, já tem 24 milhões de visualizações e só se passaram 10 meses do lançamento.
Mesmo as que não estão nos holofotes conseguem reunir talentos e recursos para produções de destaque com uma frequência que até pouco tempo atrás era impensável.
Recentemente, a Tamara Franklin quebrou tudo com o clipe de “Mala”, que ela mesmo dirigiu com Giulio Cesare100erross. Gosto de destacar sua direção porque o trabalho é impecável; a estética é bonita demais e casa muito bem com a tensão das ideias e a letra; um conjunto implacável. Isso me lembrou que já lá em 2014, Tamara figurou entre os 30 clipes que eu recomendei assistir no ano, com “Anônima”. Aliás, eu recomendo em 2026 que você relembre 2014.
Na semana seguinte ao lançamento da rapper mineira, Majis apresentou “Fora da Caixa” e destrinchou a cena com uma caneta mais afiada que qualquer Santoku. Sobrou humor ácido e várias referências, que me fez lembrar um pouco da “Sulicídio”, embora com uma temática diferente; talvez, se a rapper fosse homem, teria ganhado o mesmo espaço que seus colegas pelo “estrago” feito.
Até porque, não foi só dizer que mata “trapper ruim tipo Ajullia no The Box” ou comentar os artistas na gaveta da Hash, ela também apresentou um clipe na mesma pegada, que complementa e dá até uma nova camada às rasgadas da letra.
O trabalho foi dirigido por Vini Watanabe, que já havia feito o clipe de “BPP”, outro exemplar da Majis que definitivamente deveria ter ganhado mais visibilidade; entre reportagens da polícia KKK e referências do filme “Pecadores”, a rapper revisita o Black Panther Party (Partido dos Panteras Negras, em português) para contra-atacar o racismo e embranquecimento da música, especialmente do próprio rap.
Mais do que um ótimo trabalho, “BPP” é necessário, principalmente em um momento que tentam colocar em xeque o que sempre pareceu óbvio: o hip hop é um movimento negro e de esquerda; consequentemente, o rap também. O rap nasce, cresce, se desenvolve, cria e se recria dentro da cultura negra defendendo pautas que são quase que exclusivas da esquerda.
Enfim, Majis, Tamara, Duquesa, Ajulliacosta são só a ponta de um iceberg que contraria toda crise climática e fica cada vez maior e mais sólido. É claro que é apenas um recorte, mas este é exatamente o meu ponto: hoje, é impossível fazer qualquer recorte do rap brasileiro sem incluir, pelo menos, uma mulher… ou quatro!
Recentemente, o Rap Box anunciou a volta ao formato consagrado e trouxe 4 mulheres negras (Ana Rima, Joana Black, Cristal, Maria Preta) pra colocar o sarrafo do projeto “Legado” lá em cima. “Uma mina rimando incomoda muita gente; quatro minas rimando incomodam muito mais”, reforça o refrão.
Inclusive, cá entre nós, dava pra sintetizar de uma forma muito melhor este texto só com esta parte do verso da Maria Preta:
Enquanto os menino fala que sempre sonhou ser rapper
Nós sem tempo pra sonhar, trampando muito sem chefe
Ainda arruma tempo pra ser bela e inteligente
Por isso vocês fala mal, porque não anda com a gente
Nós serve identidade, cunt e faz espetáculo
Os caras no palco não oferece nem o básico,
não entende de jogo e quer falar do tático,
sem sabor nem nutriente, igual fruta de plástico
Diz que é o movimento mas não sustenta a fala
Chama de rap feminino pra dizer que não é legal
não ia sobrar nem o vulgo se puxar a capivara
quero ver falar que as mina não é rap nacional
Novas rappers rimando traz inúmeras novas possibilidades pro rap como um todo. Novas visões de mundo, novas pautas e até um novo público que, invariavelmente, vai acabar consumindo outros pontos da cultura também.
Além de inspirar novas mulheres a iniciarem suas carreiras, também faz com que nomes que surgiram em décadas passadas voltem aos holofotes com gás renovado. Em entrevista ao Mano a Mano, Negra Li comenta sobre o impacto da nova geração.
“Gosto muito do trabalho; gosto de como elas se impõem; como elas sabem o que querem. Isso é muito legal poder ver”, comenta a rapper. “Quando eu vejo, adoro, porque elas me ajudam também: quando vejo bastante mulheres produzindo, fazendo sucesso, elas me dão gás pra querer continuar, me dão ideias, me enchem os olhos”, completa.
Não à toa, em 2025, ela lançou “O Silêncio Que Grita”, um dos seus álbuns mais potentes, e, talvez, o que mais se aproxima do ritmo e poesia apresentados em “Guerreiro, Guerreira“, disco lançado com o Helião em 2004.
Inclusive, no novo trabalho, Negra Li lança uma nova versão de um dos clássicos daquele primeiro álbum: “Olha o Menino 2.0”, que conta com a parceria do Djonga, reforça e atualiza as dificuldades dos jovens negros cantadas na original, com uma roupagem moderna e novos problemas (embora muitos dos antigos ainda permaneçam).
Traçando uma espécie de paralelo, a rapper lançou também “Uma menina”, que foca em grandes problemas estruturais femininos na nossa sociedade: abusos/estupros, gravidez indesejada, descrença e desemparo sociais, feminicídio. A faixa conta uma história tão real que parece tirada de uma biografia/reportagem (das muitas que, infelizmente, vemos por aí); é uma das mais impactantes do disco.
Talvez não seja coincidência que, também em 2025, a Stefanie lançou um disco igualmente poderoso. Inclusive, “BUNMI” é o primeiro solo da rapper, que até então, embora tenha uma vasta carreira, só havia lançado singles e álbuns em grupos.
Até por isso, daria pra carimbar que já nasceu como um clássico. Mas, não dá pra deixar de falar neste presente que ela nos deu sem falar na versão 2.0 de “Porque eu rimo” ou, como ela chamou, “MAAT”. A rapper juntou Rashid, Kamau, Emicida e Rincon Sapiência para, novamente, marcarem uma época do rap brasileiro. (Um detalhe curioso: a sequência de versadores é a mesma, só trocando o Kamau pela Stefanie pra fechar com o/a artista principal do disco, respectivamente).
Contrariando todas as estatísticas e expectativas de quem acompanha este autor que vos escreve, MAAT não é a minha favorita: “Fugir não adianta” é transcendental (a Mahmundi chega de um jeito que parece que foi feita pra este som); “Desconforto” é fundamental; e “Outra Realidade” é imbatível.
Stefanie com Cris SNJ, Iza Sabino e Nega Gizza é a cypher que todo mundo precisava e não sabia. Aliás, o verso da Cris SNJ precisaria de um texto exclusivo só pra falar dele, então, quem sabe… (o jogo de palavras que ela faz rimando “dez” com “dez”, mas dando um diferente significado para cada uso do numeral é sensacional).
O que fica claro nos novos trabalhos da Negra Li e da Stefanie e de toda essa nova geração é que o rap, definitivamente, deu uma guinada feminista. As mulheres estão cada vez mais confortáveis ou, pelo menos, menos desconfortáveis de falar sobre a luta por igualdade de gênero.
Percebam que eu falei “guinada feminista” e não “se tornou feminista” ou algo do gênero. O rap ainda é e será por tempo um movimento machista. Talvez, com a maior presença feminina na cena, este “tempo considerável” seja reduzido exponencialmente, mas as desigualdades ainda são grandes.
A pesquisadora e jornalista Nerie Bento, em entrevista ao Alma Preta, resume a questão de maneira muito prática: “Antes, uma mulher precisava que grandes nomes do rap dissessem que ela era boa para ser reconhecida. Hoje, isso mudou. Elas construíram um público próprio. No entanto, se antes elas ganhavam dez e os homens cem, hoje elas ganham cem e eles mil”.
Se no contexto social parece óbvio que o protagonismo feminino é uma necessidade, ele também é no contexto cultural e da própria sobrevivência do rap. Não é uma questão de cotas ou apenas de combate ao machismo, mas de modernidade, refino e qualidade do bagulho mesmo.
As mulheres conquistaram esse protagonismo com rimas e melodias melhores; elas são a cara do rap, seu presente e o seu futuro. Até que enfim.
